“Mulher Maravilha”: entre a redenção e um empoderamento feminino mal trabalhado

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Assistir ao filme “Mulher Maravilha”, de Patty Jenkins, traz um alívio muito grande, ao mostrar que a DC Comics e a Warner ainda conseguem fazer bons filmes protagonizados pelos seus grandes heróis. Depois de obras controversas ou até mesmo ruins como “Batman vs. Superman” ou “O homem de aço” (que é melhorzinho), ambos de Zack Snyder, “Mulher Maravilha” pode ser comparado à qualidade do que tem sido feito pela Disney / Marvel, principalmente no que se refere aos filmes de origem de seus super-heróis.

Mas algo me incomodou muito. Houve uma grande espectativa por trás do lançamento do filme, por ser protagonizado por uma heroína, uma personagem feminina. Os filmes lançados nos últimos tempos têm sido sempre com heróis masculinos, assim, a sincronia com os tempos atuais, em que o feminismo ganhou tanto espaço, fez com que esperássemos um em que a personagem fosse tão impactante quanto os de outros filmes. Acho que isso não ocorreu na medida que poderia ter ocorrido. Percebi que foi dado um espaço muito grande ao personagem Steve Trevor, interpretado por Chris Pine. Ele comanda muitas das decisões dentro da trama. Claro que Diana, a Mulher Maravilha, interpretada pela ótima Gal Gadot, também faz isso.

Mas façamos uma comparação. Nos filmes do Superman, qual é o espaço de transformação da trama a partir da personagem de Lois Lane? Nos do Batman, como são suas várias namoradas? No Homem de Ferro, até que ponto Pepper influencia na trama? E assim por diante. Não há um equilíbrio. O protagonista realmente conduz o filme nestes casos citados. Não vejo isso em “Mulher Maravilha”.

Na minha visão, a DC ainda tem medo de colocar a trama totalmente na mão da protagonista feminina. Isso é uma besteira, pois não difere de tantos filmes convencionais em que temos mulheres de iniciativa que tomam as rédeas de suas histórias. Novamente: em “Mulher Maravilha” muitas das decisões são por parte de Diana, mas percebo que há uma clara divisão com o capitão Steve Trevor, que é o clássico herói de guerra, que se sacrifica para salvar as pessoas, e blá blá blá.

O filme, como mencionei acima, nos dá ciência da origem de Diana, a princesa de Temiscira, filha de Zeus e da rainha das amazonas. Ela está destinada a lutar contra Ares, o Deus da Guerra. Na sua visão, ele se manifesta no conflito da Primeira Guerra Mundial, para a qual parte após conhecer Steve Trevor. A história é delimitada pela exibição da presença de Diana nos “dias atuais”, quando recebe contato de Bruce Wayne – o que cria uma conexão com o filme anterior do Universo DC.

As cenas de batalha são muito boas e originais, com um trabalho de montagem empolgante. Eles abusam da fábula para criar movimentos inusitados nas personagens, sejam as amazonas, seja a própria Diana. Somente um momento me incomodou, em que ela utiliza seu laço da verdade para atacar vários alemães em alta velocidade na batalha dentro da vila francesa. Ficou fake, bem similar à superficialidade de movimento de algumas cenas de “Matrix Reloaded”, de mais de dez anos atrás.

A batalha final é incrível e muito bem construída. O vilão é atemorizante, ainda mais pela forma como é construída a espectativa quanto à capacidade de seu poder. É um momento climático tenso, bem conduzido pela jornada do herói, base para a história.

Assistir a este filme traz um certo alento pois, se formos recapitular, os grandes filmes de heróis são aqueles que têm personagens da DC Comics. Claro que aqui é uma posição totalmente opinativa e nada científica de minha parte, mas “Batman, o cavaleiro das trevas” e “Batman Begins”, de Christopher Nolan, assim como o primeiro Superman com Christopher Reeve, dirigido pelo grande Richard Donner, são ótimos exemplos desta qualidade.

Quero mais! Acho que “Mulher Maravilha” ainda pode ser melhor. Não precisa ser panfletário, mas precisa dar ainda mais espaço para a personagem. A produtora tem que ser menos covarde e deixar nas mãos da protagonista. Confiem na Gal Gadot, pois ela mostrou que tem qualidade, acima do carisma e da beleza.

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“Um homem chamado Ove” faz sorrir e chorar

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Ranzinza, autoritário, grosseiro e insensível. É assim que vemos o personagem principal nos primeiros minutos do filme sueco “Um homem chamado Ove” (En man som heter Ove, de Hannes Holm, 2015).

Fechado dentro de si, avesso a qualquer contato social positivo, Ove (Rolf Lassgard) guarda uma dor que o sufoca. Há um tom de deboche que transforma momentos a princípio ruins em leves e divertidos. Ou seja, desde o começo há esse contraste entre a rabugice de Ove e o desfecho das situações em que se coloca.

Ele encontra nessa rotina de autoritarismo e agressividade uma certa fuga, pois quando entramos em sua casa temos acesso a sua mente. Há alguém ausente, uma falta em sua vida, que faz com que queira partir também. A imagem dele se transforma para nós quando conhecemos seu passado – sua relação com o pai (Stefan Godicke), o encontro com Sonja (Ida Engvool) – e ao surgirem novos vizinhos que passam a conviver com ele. A aparição deles contraria Ove, pois sem perceber atrapalham suas tentativas de suicídio.

“Um homem chamado Ove” nos faz sorrir, chorar, gargalhar, surpreender. Torcemos por Ove, que no inusitado de sua personalidade, nos faz identificar com o contraste de nossos humores, que ora são voláteis, ora macios e delicados.

Recomendo!

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“Animais noturnos” é a confluência de mundo e mente

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Um filme feito para incomodar. Esse é “Animais noturnos”, de Tom Ford. As primeiras imagens já tiram o espectador da zona de conforto, quando, num estilo lynchiano, discute o que é a beleza e o que é o bizarro, choque entre padrões que vivenciamos diariamente.

A trama se aproveitará deste choque entre dois mundos que se misturarão. Um mundo asséptico, e outro violento. Um mundo niilista, e outro visceral e cruel. As histórias que ocorrem em cada uma dessas realidades (aquela em que a personagem vive, e a outra uma materialização da narrativa que lê) se conectam ao mesmo tempo em que percebe-se estarem separadas.

Esse é um dos grandes diferenciais de “Animais noturnos”: fazer com que dois tempos narrativos se entrelacem, cada um deles alimentando o outro, como uma relação simbiótica entre seus temas. Ao assistir o que ocorre numa destas realidades, compreende-se ou subentende-se o que se dá ou se deu na outra. Esses dois tempos narrativos são o concreto e o abstrato entrando em harmonia, mas numa desarmonização que reflete o que são nossas construções psicológicas.

A tonalidade destes dois mundos é bem contrastante, sendo o primeiro repleto de tons brancos e pretos, fazendo em algumas ocasiões os personagens perderem parte de seus corpos para as sombras enquanto outras partes ficam iluminadas. Na outra realidade os tons quentes imperam, sufocam o espectador, com o ar quente que emana do deserto e os raios de Sol que ofuscam sua visão.

Tom Ford, que havia realizado o sensível “Direito de amar”, agora traz uma história de angústia (plena e existencial), que remete a estilos como de David Lynch e David Cronenberg. Lynch, por essa transição entre mundos que se misturam, notável nos ótimos “Estrada perdida” e “Cidade dos sonhos”. Cronenberg por trazer um mundo grotesco escondido por trás de um verniz de pureza e luxo, como se vê em “Mapa para as estrelas” ou “Cosmópolis”. Ou seja, Tom Ford consegue transitar entre dois mundos ao mesmo tempo em que subentende que um sobrepõe o outro. Porém, de certa forma, a estrutura psicológica do filme também lembra “Spider – desafie sua mente”.

Falou-se muito este ano que Amy Adams deveria ser indicada ao Oscar por “A chegada”. Discordo plenamente. Sua atuação em “Animais noturnos” é muito mais profunda e desafiadora. Jake Gyllenhaal também impressiona, junto a Aaron Taylor-Johnson e Michael Shannon.

Não descrevi do que se trata o filme, pois isso não importa. Entender a história não é o principal, mas vivenciar a articulação feita pelo cineasta. Assista de olhos bem abertos, para perceber o que descrevi neste texto, mesmo que às vezes os acontecimentos no filme tornem forte a vontade de fechá-los.

“Moonlight” venceu o Oscar, trata de temas importantes, mas não tem nada de mais

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Moonlight: sob a luz do luar” é um filme comum e arrastado que trata de temas de grande relevância, com alguns momentos de brilhantismo técnico e artístico. Temas como os que constam no vencedor do Oscar desse ano já foram melhor abordados em outros filmes no passado, como mencionarei ao longo do texto.

O filme de Barry Jenkins ganhou três prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas no dia 26 de fevereiro. Melhor roteiro adaptado, ator coadjuvante (para Mahershala Ali) e filme. Sim, sua grande vitória foi eclipsada pela trapalhada protagonizada pelos auditores da Price Waterhouse, em parceria com os desavisados Warren Beatty e Faye Dunaway.

Quando ganhou o prêmio, eu ainda não tinha assistido ao filme. Estava curioso para conhecê-lo, visto que muitos amigos publicaram textos positivos a respeito, além de saber da importante temática e dos prêmios recebidos.

Assim, fui assistir. E acho que minha opinião pode não agradar a muitos. Mas vamos lá.

Não vi nada de mais no filme. Nada mesmo. Saí da sala de cinema estupefato com o que acabara de assistir. Ok, o filme não é ruim. Tem algumas qualidades que devem ser enaltecidas, como a belíssima fotografia (em especial por causa da adequada escolha da paleta de cores) e o ótimo elenco.

O filme surge num momento em que seus temas (marginalização dos pobres, preconceito quanto a orientação sexual, violência, identidade, dependência de drogas) estão na agenda da sociedade. Ou seja, trata-se de um filme que aborda inquietações de grande parte de nós na atualidade, utilizando a trajetória de um rapaz para discutir o meio em que está inserido e o desenvolvimento de sua persona.

Muito se falou do ineditismo de um filme como esse vencer o Oscar. Na minha visão, parte das temáticas abordadas se aproximam muito do filme “Perdidos na noite”, ganhador do prêmio principal de 1970 (para filmes de 1969). Neste filme, Joe Buck e Ratzo Rizzo também representam pessoas marginalizadas que acabam impulsionadas a cometer delitos ou a se colocar em situações moralmente humilhantes. Só que é um filme de outra época, inserido em outro contexto. Mas, repito, para mim estão muito próximos. Apesar de “Perdidos…” ser muito melhor.

Filmes como “O segredo de Brokeback Mountain” ou “Azul é a cor mais quente” tratam a questão da homossexualidade e da identidade relacionada à opção da orientação sexual de forma muito mais profunda e bem contada do que “Moonlight”.

Em relação à violência e sua relação com a marginalização histórica que a sociedade aplica a outras etnias, em especial aos negros, considero que diversos filmes de Spike Lee estão à frente do vencedor do Oscar deste ano, em especial “Faça a coisa certa”, “Febre de selva”, o ótimo “Irmãos de sangue” ou o divertido e ácido “A hora do show“. Porém devo enaltecer outro filme: “Boyz n’ the hood – os donos da rua”, obra-prima de John Singleton, trabalha muitos dos temas referidos na história de Barry Jenkins mas, novamente, com uma trama muito mais envolvente. Poderíamos ir longe nas referências se mencionasse ainda “Perigo para a sociedade” e até mesmo “Crash – no limite”, vencedor do Oscar de 2005 (para filmes de 2004), que na época desbancou o favoritíssimo, e já mencionado aqui, “Brokeback Mountain”. Ou se falássemos dos filmes protagonizados por Sidney Poitier, como “Acorrentados“, “No calor da noite” ou “Adivinhe quem vem para jantar“.

A história de “Moonlight” divide-se em três partes, mostrando, na ordem, a vida de Chiron quando criança, adolescente e adulto. Propositadamente não digo que são três atos, pois sinto-os desconexos como história. A liga que se dá entre estas partes é apenas a presença do personagem, sem haver uma trama definida que seja acompanhada pelo espectador. Atenção: de forma alguma digo que deveria ser aquele filme clássico, com um conflito claro e seu posterior desdobramento. Os cineastas devem ousar mesmo, escapar da fórmula tradicional. Mas não considero este caso aqui. É arrastado, excessivamente contemplativo, abusando dos tempos vazios a fim de construir um clima que, na minha visão, não se concretiza. A terceira parte, que tinha tudo para ser muito boa, é chata demais. Não tenho outro termo: é chata mesmo – demora para acabar.

A única parte que realmente agrada é a primeira, intitulada “Little”. Tem um ritmo mais intenso e bem construído, e a presença do premiado Mahershala Ali (que admiro desde a época em que o assistia no seriado “The 4400”, ainda com seu nome completo – Mahershalalhashbaz Ali), que interpreta o traficante Juan, marca definitivamente a vida do personagem central ainda quando criança. Vemos surgir conflitos importantes que poderiam ser melhor trabalhados, mas que perdem força no decorrer da história. Por sinal, é nessa parte que há a sequência mais bela do filme, quando observa-se a convivência entre Little e Juan, em especial nas cenas dentro do mar.

Fez-se um alarde enorme sobre a questão da homossexualidade de Chiron. Sem dúvida, trata-se de algo importante para compreendermos as angústias do personagem, devido à dificuldade em se enquadrar tanto na sociedade quanto dentro de si próprio, o que afeta sua personalidade. Mas nem de longe se torna um tópico fundamental, se comparado a outros temas que surgem ao longo da projeção, como a existência de um contexto que empurra os jovens à criminalidade, o preconceito ou a importância das raízes familiares.

Respeito muito a escolha de um filme ousado como esse para vencer o Oscar. Sempre gosto quando o “queridinho” é desbancado, como foi o caso de “La La Land: cantando estações” neste ano, ou do chatérrimo “O regresso” no ano passado (que perdeu para “Spotlight: segredos revelados“). Mas devo dizer que considero o filme musical de Damien Chazelle melhor que “Moonlight”, apesar de nenhum deles ter o impacto dramático e artístico que senti com “Manchester à beira-mar”.

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“Lion” é uma ode à beleza da adoção e às marcas profundas de nossas origens

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Quantas crianças abandonadas pelo mundo… quantas histórias interrompidas ou desviadas de curso… a cada pequeno ser que se encontra em abrigos ou nas ruas, há uma trajetória por trás, que muitas vezes não nos damos conta. É natural, não é motivo para se sentir culpado, pois estamos na inércia de nossas existências, num contexto global de desigualdade e pobreza que infelizmente anestesiou nossa sensibilidade. Mas há uma boa parte da população mundial massacrada pela pobreza e que precisa de ajuda.

Em “Lion – uma jornada para casa”, temos a oportunidade de conhecer uma dessas histórias. O pequeno Saroo, de cinco anos, se perde do irmão, entra num trem que viaja mais de mil quilômetros de sua cidade natal, e não consegue retornar para a família. Passa por aventuras angustiantes e perigosas até que acaba adotado por um casal australiano. Mais de vinte anos se passam até que o adulto Saroo resolve procurar seus parentes. Mas primeiro precisa descobrir o nome verdadeiro do lugar onde morou.

Desde o começo do filme as imagens das origens de Saroo surpreendem. Os primeiros planos são lindos, sendo uma delas a do pequenino envolto por uma nuvem de borboletas enquanto observa o irmão que tanto ama e do qual também se perderá. Cada imagem valoriza essas origens de Saroo e suas posteriores lembranças, um pouco esmaecidas pelo tempo, mas que aos poucos atiçam sua memória.

O embate entre a gratidão pelo casal australiano e o retorno para casa começa a se dar na cabeça do rapaz, angustiado pela mãe e irmão que não sabem de seu destino. Confira o filme para saber o resultado desta história verídica.

(Dedico esse curto texto à memória de meu amigo Alexandre Huady, que em sua delicadeza amaria o tema do filme e, em sua paixão pela fotografia, deixaria seus olhos brilharem)

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“As baleias de agosto” ainda é um belo testamento de Davis e Gish

the-whales-of-augustQuando Bette Davis morreu, em 1989, lembro do noticiário enaltecendo aquele que foi seu último filme de grande repercussão: “As baleias de agosto”, dirigido pelo clássico diretor Lindsay Anderson, ironicamente se tornou o último filme dela (exceto pelo pouco conhecido “A madrasta”) e também de sua parceira de cena: Lillian Gish. Eu era novo, mas já gostava muito de cinema. Sabia a importância daquela de Bette Davis, porém apenas havia assistido um filme com ela – “O que terá acontecido a Baby Jane?”.

Para aqueles que gostam de cinema, o nome destas duas mulheres remonta àquilo que foi um dos melhores períodos do cinema hollywoodiano. Bette Davis foi a grande diva, super premiada, vencedora de dois Oscar, protagonista do incrível “A malvada”. Lillian Gish era mais velha que sua parceira. Participara de dois filmes seminais do cinema mundial: “O nascimento de uma nação” e “Intolerância”, ambos de D. W. Griffith.

Em “As baleias de agosto” (“The Whales of August”, 1987) temos a possibilidade de ver um filme de sensibilidade única. Além de se concentrar em personagens idosos (algo que não se vê muito, mas vale apontar o ótimo filme “Juventude”), concentra três monstros sagrados: as duas atrizes mencionadas e o conhecido Vincent Price.

A história é simples. Duas irmãs muito idosas vivem numa ilha onde sempre estiveram. Uma das atividades que as conduziu por toda a vida era esperar a passagem das baleias que circulavam a orla no mês de agosto. Agora muito idosas, as duas senhoras (uma doce e ativa, a outra amarga e que perdera a visão) convivem em meio ao questionamento sobre a forma de encarar o fim da vida e como lidar com suas memórias e desejos.

O filme é muito delicado, principalmente devido à atuação de Lillian Gish. Seu olhar pontua o drama, dando o compasso dos momentos graves, sensíveis e até mesmo de decepção. Traz diversas reflexões para o espectador. Como encarar esta etapa da vida? O que nos alimentará? Seriam as lembranças? Seria a rotina? Seria a angústia? A presença dos outros personagens – o ex-nobre russo (Price), o faz-tudo (Harry Carey Jr.) e a amiga intrometida (Ann Sothern) apenas trazem mais elementos para estes pensamentos das duas irmãs.

Demorei para assistir a este filme. Já tinha ele aqui há anos, desde que a Lume Filmes resolveu lançar em DVD aqui no Brasil. Acho que o timing foi bom, já que acredito que é necessário estar mais maduro para valorizar ainda mais essa obra. Trata-se de um filme de apenas uma hora e meia de duração, mas é daqueles que em sua curta duração consegue aglutinar muitas sensações.

Foi um belo testamento para ser deixado pelas duas.

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Táxi Teerã, de Panahi, luta para dar voz a quem quiseram calar

taxi-theheran1Podem te prender, podem te ferir, podem impedi-lo de fazer os filmes que quer, mas não vão amordaçá-lo.

Jafar Panahi está proibido de fazer filmes desde 2010. Como represália ao apoio que fez em 2009 ao candidato oposicionais à presidência, um dos maiores cineastas iranianos contemporâneos não consegue mais filmar.

Não consegue?

Filmes como “O balão branco“, “O círculo” e “Ouro carmim” ficam muito difíceis de fazer devido às restrições, mas Panahi tem dado o seu jeito. Por sinal, vale a indicação para que assistam o filme “O círculo”, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2000, e que fala da opressão da sociedade iraniana sobre as mulheres.

Desde este evento, criticado no mundo todo, o diretor conseguiu fazer três filmes: o ótimo “Isto não é um filme“, “Cortinas fechadas” e aquele que é o tema deste texto: “Táxi Teerã“.

Vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim de 2015, o filme mostra o próprio cineasta como um motorista de táxi que recolhe passageiros em meio à calorenta e caótica Teerã. O filme parece um documentário, mas logo percebe-se que aqueles que entram em seu táxi são atores que representam alguns “tipos” e “situações” encontradas na sociedade iraniana.

Por meio deste mockumentary (falso documentário), Jafar Panahi discute a realidade da sociedade na qual está inserido e, até mesmo, discute as formas de representá-la dentro de um filme. Há momentos em que isso é dito de forma bem objetiva, numa discussão que ele tem com sua “sobrinha”.

O filme pode parecer simples num primeiro olhar, mas se nos pusermos a refletir, pensando no contexto de perseguição que este homem vive, trata-se de um libelo anticensura. Além disso, vale a análise das representações criadas pelo realizador, que são puras e intensas ao mesmo tempo, devido à carga de realidade que ele procura dar.

Assista o trailer.

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“Juventude” faz bem para os olhos, faz bem para alma

youth_02Os filmes que correm por fora do circuito comercial, simbolizado pelas salas multiplex dos shoppings, acabam perdendo um pouco de visibilidade. Nesta toada, parte do público acaba por não perceber algumas oportunidades que passam.

“Juventude” é uma obra-prima que está em cartaz em apenas dois cinemas na cidade. O filme foi dirigido pelo italiano Paolo Sorrentino, que para muitos é um desconhecido. Porém basta mencionar o filme anterior dele para que as credenciais se valorizem: “A grande beleza” ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro há dois anos.

Neste ano, em que houve muitas reclamações a respeito da ausência de profissionais negros nas indicações ao Oscar, lembro de ter visto também algumas tímidas menções ao lamentável esquecimento de “Juventude”, que na época somente tinha o seu título original – “Youth”. Vale a rápida explicação à parte, que apesar do diretor ser italiano e se tratar de uma coprodução entre Itália, França, Reino Unido e Suíça, o filme é todo falado em inglês.

Mas voltando à questão relacionada ao Oscar, é curioso este filme não ter sido lembrado pela Academia. Seu protagonista está sublime (Michael Caine, no alto de seus 83 anos), expondo sua longa experiência nas telas num personagem difícil de tão contido e introvertido. As músicas do filme são muito boas, mesclando clássico e pop, o que torna o filme muito moderno, mesmo com a temática que tem, e sobre a qual falarei em breve. A fotografia também trabalha grande alternâncias, com planos muito abertos, que valorizam a paisagem idílica onde se encontram os personagens, e planos bem próximos, que focalizam os rostos deles como se estivéssemos “coladinhos”.

Fred Ballinger é um maestro e compositor que se encontra num SPA na Suíça. Tem a companhia de Mick Boyle (Harvey Keitel), que é um velho amigo e diretor de cinema que planeja seu último filme. Também tem a companhia de sua filha (Rachel Weisz) e de um ator frustrado (Paul Dano). Ballinger não quer mais atuar em sua profissão, como ele próprio diz, por razões pessoais. Ele desistiu de trabalhar e desistiu da vida, como diz num determinado ponto da história. Aos poucos, começa a refletir mais a respeito de seu contexto de vida, à medida que os acontecimentos se desenvolvem.

Obra-prima

No início deste texto eu disse que se trata de uma obra-prima. Claro que é algo muito determinista e pessoal falar algo assim. Mas gostaria de defender meu ponto de vista. Em primeiro lugar, devemos passar pelo elenco. Não se trata de um cast óbvio, pois diferente de produções com chancela hollywoodiana, opta por ter encabeçando o elenco atores que não estão no primeiro time de mega-astros. Dois são bem idosos, enquanto os outros dois são atores em ascensão, mas que não tem grande apelo midiático. Talvez isso tenha feito o filme ganhar sua força, pois não nos concentramos na figura do artista em si, mas na obra inteira, na qual os personagens são uma das engrenagens que fazem ela funcionar. Não posso deixar de mencionar a rápida e ótima aparição de Jane Fonda, que dá mais uma pitada de emoção para o filme.

Contei logo acima qual é a história do filme, mas há algo que sempre vai além da história: o tema. O filme é uma reflexão sobre a existência. E quando fala-se de existência, fala-se sobre o que desejamos da vida, o que fazemos enquanto somos jovens, o que esperar do futuro, como conviver a velhice. Uma das questões que mais mexeram comigo foram as reflexões de Ballinger sobre como os jovens enxergam a velhice – eles acham que sabem o que os velhos sentem, mas na realidade não sabem nada. Claro que eu estou resumindo o que ele diz, mas sua reflexão deixa bem claro que somente quando se chega à velhice e se está mesmo sentindo-a na pele é que temos a real dimensão do que é.

Falei da questão da alternância técnica de enquadramentos e temas musicais. Pois não para nisso. O filme também transita entre o drama e o cômico. Seus personagens secundários são inusitados, como o excêntrico instrutor de escalada, o menino violinista, a Miss Universo que desfila sua beleza e quebra estereótipos com sua sagacidade, e um dos personagens mais divertidos – um simulacro de Diego Armando Maradona, que rasteja pelo SPA com sua enorme tatuagem de Marx nas costas. Isso mostra mais uma vez a influência direta de Fellini sobre Sorrentino, pois o primeiro era notabilizado pelos seus personagens bizarros e instigantes.

Cada personagem tem seu momento especial, quando o filme se preocupa em expor seus desejos, lembranças e frustrações. Isso tudo simbolizado por imagens muito bem compostas e criativas.

O filme não segue a lógica linear do roteiro tradicional. Ele é repleto de momentos isolados, pouco significativos para uma possível “trama principal”, mas fundamental para lidar com a temática da existência, da percepção sobre o mundo e o meio.

“Juventude” termina com uma cena sublime. Este adjetivo não é referente à sua beleza plástica. Até há uma certa beleza, mas não é aí que mora seu encanto. Trata-se de um desfecho muito coerente com a história que acompanhamos, no qual podemos vivenciar uma catarse plena, que alimenta ainda mais todas as reflexões que o filme gerou no decorrer de sua exibição.

Não percam! Vale a pena ver no cinema, em tela grande, com o som ao máximo. Não é no cineplex, mas basta ir lá no Belas Artes que dá para assistir!

SET DEL FILM "LA GIOVINEZZA" DI PAOLO SORRENTINO.FOTO DI GIANNI FIORITO

 

Minhas poucas palavras sobre “Guerra Civil”

Eu não entendo nada de histórias em quadrinhos. Nunca fui de ler a Marvel ou a DC Comics. Portanto, não sei o que acontece nos quadrinhos do Guerra Civil, nem nunca soube o que acontecia nos outros quadrinhos que foram adaptados para o cinema.

Mas eu gosto de filmes. E eu gosto dos filmes da Marvel. Assistir a “Capitão América 3 – Guerra Civil” foi demais! Diversão pura! Efeitos especiais muito bem trabalhados, principalmente porque não ficamos prestando atenção neles. A trama ficou tão envolvente a meu ver, que tudo parece muito factível e lógico. Sim, aquele cara voa, aquele outro salta de dezenas de metros de altura e o outro é indestrutível. Sim, estamos no terreno do fantástico, do lúdico, do “também-quero-ser”.

Gosto da confluência feita entre os vários heróis da Marvel. Claro que há alguns que ainda não estão presentes, mas aqueles que participam dão conta do recado. Lembro quando vi o terceiro filme do Homem-Aranha, dirigido pelo Sam Raimi, e disse que um dos motivos dele não ser bom é porque havia muitos personagens “fantásticos” (além do próprio Aranha, tinha o Venon, o Duende Verde e o Homem de Areia). Para mim, esta escolha havia sido errada. Mas vendo hoje “Guerra Civil”, percebo que Raimi que não foi eficiente. Aqui temos mais de dez heróis juntos, todos com boas participações, muito bem trabalhadas, estimulantes e que contribuem para o progresso da trama.

Claro que os personagens centrais são o Capitão América e o Homem de Ferro. Mas os outros não deixam a desejar. Não vou adiantar nenhum que aparece, pois há a graça da surpresa para sua aparição. São os dois que comandam a trama, em especial o Capitão. Eles cometem as ações que causam o conflito central, um agindo e o outro reagindo. Estratégia comum neste tipo de filme, aqui bem evidente, mas não menos eficiente.

Se os amantes da Marvel compararão com os quadrinhos, encontrando defeitos ou imprecisões, não sei. Eu apenas posso comparar com o recente “Batman vs. Superman”, e digo que nem vale a pena falar sobre este filme. Para mim, em “Guerra Civil” está tudo ótimo. Gostei até mesmo do final, pois fica aquele desejo de quero mais. E se sou Team Captain ou Team Stark? Sei lá!

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