A noite interminável de “Pepe” Mujica e seus companheiros

posterSe começasse esta crítica dizendo que “Uma noite de 12 anos” (“La noche de 12 años”, de Álvaro Brechner) é um filme sobre a repressão durante um regime ditatorial latino-americano, provavelmente o leitor viraria os olhos, lembraria dos vários que já assistiu e perderia o interesse. Então… “Uma noite de 12 anos” é um filme sobre a repressão durante o regime ditatorial uruguaio, no decorrer das décadas de 1970 e 1980. Porém, é algo novo. É uma obra peculiar, que escapa do lugar comum do proselitismo ideológico para explorar, com muita criatividade e qualidade narrativa, a provação pela qual passam os três personagens centrais.

A propaganda oficial do filme diz que trata-se da história dos 12 anos de prisão pelo que passou o ex-presidente uruguaio José “Pepe” Mujica. De fato, é um dos personagens centrais, mas divide a trama de forma equivalente com os outros dois homens cativos: Eleutério Fernández Huidobro, conhecido como “El Ñato”, e Mauricio Rosencof, o “Ruso”. Os três são ex-combatentes dos Tupamaros que são capturados pelo Exército. Por não poderem matá-los, os militares os mantêm detidos em condições subumanas, sofrendo abusos, violência e todo tipo de privação. 

O diretor Álvaro Brechner se afasta da tentação de levantar bandeiras políticas, para investir num mergulho à mente daqueles homens que se encontram numa situação limite. É evidenciado o terrível comportamento das autoridades, mas o foco é mais humanizado. O realizador recorre a uma variedade de estratégias narrativas que permitem ao espectador sentir um pouco do que aqueles personagens teriam sentido. Fotografia, montagem e sonorização trabalham de forma harmoniosa para atingir esse objetivo. Às vezes isso é feito com planos muito curtos e próximos, sobrepostos em velocidade. Noutras, com planos sequência angustiantes, como o que abre o filme. Esse plano, aliás, é muito bem executado, girando a câmera 360°sobre seu eixo para mostrar os eventos iniciais da história. A fotografia deste filme é esplendorosa, tanto no trabalho de câmera quanto na luz, com ambientes muito escuros que exploram as réstias de luminosidade que se aproximavam dos personagens.

Mujica é interpretado por Antonio de la Torre, El Ñato por Alfonso Tort e o Ruso por Chino Darín. Os três conseguem explorar os extremos de seus personagens, tanto quando no fundo do poço, em meio ao desespero, até em instantes de alegria e exaltação, quando podem expandir um pouco dos sentimentos que são obrigados a reprimir dentro do cárcere. Eles são interessantes por transbordarem humanidade além de suas ações, em especial quando próximos aos familiares e companheiros. A força interior é clamada a todo momento para superar as vicissitudes e essa noite, essa escuridão, que parecia que nunca terminaria. Nós sabemos o final desta história, pois trata-se de três personagens reais que conquistaram posteriormente posições públicas. Mas de onde vieram? Pelo que passaram? Eis a oportunidade de verificar.

“A noite de 12 anos” é o representante uruguaio que pleiteia uma vaga como concorrente ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2019. Mostra-se um candidato de ótimas credenciais, o que não ocorre apenas devido aos dois prêmios recebidos no Festival de Berlim deste ano. É um filme para o qual não podemos fechar nossos olhos. Devemos olhar para dentro dele, no fundo de suas intenções, por preocupar-se em trabalhar de forma tão explícitas os efeitos da repressão sobre o ser humano, tema cada vez mais relevante, ainda mais com a ascensão e a volta da aceitação de forças funestas tão similares pelo mundo todo, inclusive nos Estados Unidos e no Brasil.

Não perca!

Veja o trailer.

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