Lista dos melhores filmes que assisti em 2017

filmes 2017

Listas sempre são coisas estranhas. São extremamente pessoais pois, se feitas com sinceridade, exporão aquilo que o autor mais aprecia e que fez diferença em sua vida. Se feitas para agradar fulano ou sicrano, ou para simular certo repertório ou predileção, ação típica dos cínicos e/ou arrogantes, tendem a serem enfadonhas e sem qualquer novidade.

Resolvi indicar e comentar alguns filmes que assisti neste ano pela primeira vez e que de alguma forma me impactaram. Assisti muitos outros filmes ótimos, mas que optei em não colocar na lista, seja por não ter sido a primeira vez que vi (senão, não faria muito sentido estar aqui), ou porque, apesar de bom, não marcou com tanta intensidade.

Visto que não fiz nenhuma anotação sobre estes filmes (exceto aqueles sobre os quais escrevi neste blog), veio tudo da memória. Esse fato é importante, pois num ano em que tantas coisas incríveis aconteceram, lembrar de títulos tão relevantes demonstra que realmente há algo de especial neles.

Esta lista foi feita de coração aberto, expondo aquilo que me agradou. Sempre será possível indicar ausências, pois eu mesmo tive que cortar alguns filmes daqui, senão ficaria muito extensa. Espero que esse leitura sirva para inspirar aqueles que ainda não assistiram aos filmes, ou para que outros façam suas próprias listas.

 

Os melhores, que fizeram 2017 valer a pena

“Visages, villages”, de Agnès Varda e J.R.

A diretora octagenária se reúne ao fotógrafo J.R. para viajar por cidades francesas em busca de personagens anônimos e significativos de cada localidade. Ao escolher construções nas quais colam fotografias destes personagens, dão novo valor àquele lugar e à pessoa e ampliam o olhar que temos na relação entre espaço, tempo e cidadão. Tudo isso regado pelo bom humor dos diretores, em especial pela empatia e graça de Agnès Varda.

Visages Villages

“Eu, Daniel Blake”, de Ken Loach

Por meio da história de Daniel, o diretor britânico faz uma severa crítica à burocracia da assistência social na Inglaterra. Daniel sofreu um ataque cardíaco e está proibido de trabalhar. Porém, não consegue receber os benefícios da assistência por divergências de informação e procedimentos. Mas ele precisa se sustentar, precisa de dinheiro. Ao trazer personagens tão humanos e verossímeis, faz com que o público se conecte de pronto a eles e passe a encontrar ligações entre a trama e sua vida.

eu, daniel blake

 

Expulso da zona de conforto

“Era o Hotel Cambridge”, Eliane Caffé

Híbrido de documentário e ficção, mostra o dia a dia dos moradores na ocupação existente dentro do antigo Hotel Cambridge, em São Paulo. Ao misturar esses moradores e atores profissionais dentro do filme, e preocupar-se em registrar o que é a vida destas pessoas que lutam por moradia na metrópole, a diretora consegue realizar uma importante peça social e dramatúrgica, ao mesmo tempo que entretém o público. Ótimo exemplo do uso do cinema como veículo para conscientização da população e de intervenção na realidade daqueles que são menos privilegiados.

era o hotel cambridge

“Mãe!”, de Darren Aronofsky

Filme que divide opiniões, traz uma Jennifer Lawrence inspirada no papel de uma mulher isolada no meio do nada junto a seu marido. De repente, diversos acontecimentos se dão, direcionando nosso olhar para uma grande metáfora que o realizador se propõe a efetuar. Com a câmera móvel o tempo todo e uma montagem minuciosa, o filme incomoda e chega a causar horror. Positiva ou negativamente, todos saem impactados.

mother

 

Para não sair nunca mais da cabeça

“Nostalgia da Luz” / “O botão de pérola”, de Patricio Guzmán

Esses dois filmes estão juntos aqui por fazerem parte de uma trilogia que o documentarista chileno está realizando a respeito da herança da ditadura Pinochet. No primeiro filme, compara a busca que os familiares de mortos políticos empreendem no deserto do Atacama com a realizada por astrônomos que, naquele mesmo local, apontam seus telescópios para o céu a fim de entender a origem da vida no universo. Já o segundo filme conecta o holocausto sofrido pelos índios chilenos, primeiros habitantes de lá, aos horrores cometidos pela ditadura, em especial o procedimento de ocultação de cadáveres ao lançá-los de aviões em direção do mar. Resta-nos aguardar o fechamento da trilogia.

nostalgia da luz     o botão de perola

“Daguerreótipos”, de Agnès Varda

Na rue Daguerre, em Paris, há uma variedade de estabelecimentos e personagens que Varda resolve conhecer e investigar. Assim como o patrono da fotografia, Louis Daguerre, a cineasta quer fazer uma espécie de instantâneos daquelas pessoas, a fim de mostrar suas peculiaridades e sua humanidade. Na simplicidade do filme está a beleza de seus retratos. Há momentos deliciosos, da mais pura espontaneidade, algo que somente poderia ser registrado por meio da delicadeza das lentes de Agnès Varda.

daguerreotipos

 

A expansão do olhar

“The Clock”, de Christian Marclay

Pense num filme que dura 24 horas. E que este é composto prioritariamente por imagens de relógios provenientes de todo e qualquer filme do mundo. Marclay sincroniza o tempo real de nosso mundo com os horários marcados nas imagens das obras reunidas em seu vídeo instalação. O que acabamos por assistir é um caleidoscópio, composto por filmes famosos e desconhecidos, novos e antigos, bons e ruins, mas que têm em comum essas imagens de relógios que mostram os mais diversos horários possíveis. São relógios antigos, de parede, digitais, de pulso, e tantas outras formas. Ao assistir, a impressão é sempre a mesma: “nossa, como não reparei que havia este relógio marcando o horário?” Além disso, Marclay trabalha a montagem de forma a criar conexões entre as imagens de um filme e de outro. Tudo se torna divertido, envolvente e instigante. Esta exposição fílmica de 24 horas foi exibida por quase três meses no ótimo Instituto Moreira Salles, aqui em São Paulo.

the clock

 

Intensidade e sensibilização

“Um limite entre nós”, de Denzel Washington

Saí deste filme abalado. Precisei voltar a pé para casa para absorver o impacto que teve em mim. A peça de August Wilson é um soco no estômago, ao discutir preconceito racial, marginalização e família. O elenco todo é exuberante, mas o casal central – Denzel e Viola Davis – faz com que o filme se torne especial. O personagem de Denzel – Troy Maxson – incorpora todas as discussões implementadas na história, sendo machista, dominador e violento, mas, também, sedutor e de caráter forte. Você o odeia por grande parte do filme, mas por alguma razão no final é gerada uma aura de respeito e admiração, até mesmo por parte de seus familiares. Como interpretar isso?

fences

“Sem data, sem assinatura”, de Vahid Jalilvand

Um médico sofre um acidente de carro, ao atropelar uma família que transitava no acostamento da avenida. Eles se machucam, mas vão embora aparentemente bem. Porém, no dia seguinte o médico fica sabendo que o filho mais velho da família morreu. A partir daí nos envolvemos na dualidade entre a suspeita do real motivo desta morte e uma certa crise de consciência que conduz os acontecimentos da história. O filme prende nossa atenção devido à humanização destes personagens, que ficam tão próximos de nós em seus dramas e dilemas, num estilo similar ao de Ken Loach e do compatriota do diretor, o ótimo Asghar Farhadi. O pai do menino morto é uma personalidade à parte, que deve ser observada, pois concentra em si a tristeza, o ódio, o orgulho e uma certa culpa.

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