“Animais noturnos” é a confluência de mundo e mente

animais noturnos cartaz

Um filme feito para incomodar. Esse é “Animais noturnos”, de Tom Ford. As primeiras imagens já tiram o espectador da zona de conforto, quando, num estilo lynchiano, discute o que é a beleza e o que é o bizarro, choque entre padrões que vivenciamos diariamente.

A trama se aproveitará deste choque entre dois mundos que se misturarão. Um mundo asséptico, e outro violento. Um mundo niilista, e outro visceral e cruel. As histórias que ocorrem em cada uma dessas realidades (aquela em que a personagem vive, e a outra uma materialização da narrativa que lê) se conectam ao mesmo tempo em que percebe-se estarem separadas.

Esse é um dos grandes diferenciais de “Animais noturnos”: fazer com que dois tempos narrativos se entrelacem, cada um deles alimentando o outro, como uma relação simbiótica entre seus temas. Ao assistir o que ocorre numa destas realidades, compreende-se ou subentende-se o que se dá ou se deu na outra. Esses dois tempos narrativos são o concreto e o abstrato entrando em harmonia, mas numa desarmonização que reflete o que são nossas construções psicológicas.

A tonalidade destes dois mundos é bem contrastante, sendo o primeiro repleto de tons brancos e pretos, fazendo em algumas ocasiões os personagens perderem parte de seus corpos para as sombras enquanto outras partes ficam iluminadas. Na outra realidade os tons quentes imperam, sufocam o espectador, com o ar quente que emana do deserto e os raios de Sol que ofuscam sua visão.

Tom Ford, que havia realizado o sensível “Direito de amar”, agora traz uma história de angústia (plena e existencial), que remete a estilos como de David Lynch e David Cronenberg. Lynch, por essa transição entre mundos que se misturam, notável nos ótimos “Estrada perdida” e “Cidade dos sonhos”. Cronenberg por trazer um mundo grotesco escondido por trás de um verniz de pureza e luxo, como se vê em “Mapa para as estrelas” ou “Cosmópolis”. Ou seja, Tom Ford consegue transitar entre dois mundos ao mesmo tempo em que subentende que um sobrepõe o outro. Porém, de certa forma, a estrutura psicológica do filme também lembra “Spider – desafie sua mente”.

Falou-se muito este ano que Amy Adams deveria ser indicada ao Oscar por “A chegada”. Discordo plenamente. Sua atuação em “Animais noturnos” é muito mais profunda e desafiadora. Jake Gyllenhaal também impressiona, junto a Aaron Taylor-Johnson e Michael Shannon.

Não descrevi do que se trata o filme, pois isso não importa. Entender a história não é o principal, mas vivenciar a articulação feita pelo cineasta. Assista de olhos bem abertos, para perceber o que descrevi neste texto, mesmo que às vezes os acontecimentos no filme tornem forte a vontade de fechá-los.

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