“Moonlight” venceu o Oscar, trata de temas importantes, mas não tem nada de mais

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Moonlight: sob a luz do luar” é um filme comum e arrastado que trata de temas de grande relevância, com alguns momentos de brilhantismo técnico e artístico. Temas como os que constam no vencedor do Oscar desse ano já foram melhor abordados em outros filmes no passado, como mencionarei ao longo do texto.

O filme de Barry Jenkins ganhou três prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas no dia 26 de fevereiro. Melhor roteiro adaptado, ator coadjuvante (para Mahershala Ali) e filme. Sim, sua grande vitória foi eclipsada pela trapalhada protagonizada pelos auditores da Price Waterhouse, em parceria com os desavisados Warren Beatty e Faye Dunaway.

Quando ganhou o prêmio, eu ainda não tinha assistido ao filme. Estava curioso para conhecê-lo, visto que muitos amigos publicaram textos positivos a respeito, além de saber da importante temática e dos prêmios recebidos.

Assim, fui assistir. E acho que minha opinião pode não agradar a muitos. Mas vamos lá.

Não vi nada de mais no filme. Nada mesmo. Saí da sala de cinema estupefato com o que acabara de assistir. Ok, o filme não é ruim. Tem algumas qualidades que devem ser enaltecidas, como a belíssima fotografia (em especial por causa da adequada escolha da paleta de cores) e o ótimo elenco.

O filme surge num momento em que seus temas (marginalização dos pobres, preconceito quanto a orientação sexual, violência, identidade, dependência de drogas) estão na agenda da sociedade. Ou seja, trata-se de um filme que aborda inquietações de grande parte de nós na atualidade, utilizando a trajetória de um rapaz para discutir o meio em que está inserido e o desenvolvimento de sua persona.

Muito se falou do ineditismo de um filme como esse vencer o Oscar. Na minha visão, parte das temáticas abordadas se aproximam muito do filme “Perdidos na noite”, ganhador do prêmio principal de 1970 (para filmes de 1969). Neste filme, Joe Buck e Ratzo Rizzo também representam pessoas marginalizadas que acabam impulsionadas a cometer delitos ou a se colocar em situações moralmente humilhantes. Só que é um filme de outra época, inserido em outro contexto. Mas, repito, para mim estão muito próximos. Apesar de “Perdidos…” ser muito melhor.

Filmes como “O segredo de Brokeback Mountain” ou “Azul é a cor mais quente” tratam a questão da homossexualidade e da identidade relacionada à opção da orientação sexual de forma muito mais profunda e bem contada do que “Moonlight”.

Em relação à violência e sua relação com a marginalização histórica que a sociedade aplica a outras etnias, em especial aos negros, considero que diversos filmes de Spike Lee estão à frente do vencedor do Oscar deste ano, em especial “Faça a coisa certa”, “Febre de selva”, o ótimo “Irmãos de sangue” ou o divertido e ácido “A hora do show“. Porém devo enaltecer outro filme: “Boyz n’ the hood – os donos da rua”, obra-prima de John Singleton, trabalha muitos dos temas referidos na história de Barry Jenkins mas, novamente, com uma trama muito mais envolvente. Poderíamos ir longe nas referências se mencionasse ainda “Perigo para a sociedade” e até mesmo “Crash – no limite”, vencedor do Oscar de 2005 (para filmes de 2004), que na época desbancou o favoritíssimo, e já mencionado aqui, “Brokeback Mountain”. Ou se falássemos dos filmes protagonizados por Sidney Poitier, como “Acorrentados“, “No calor da noite” ou “Adivinhe quem vem para jantar“.

A história de “Moonlight” divide-se em três partes, mostrando, na ordem, a vida de Chiron quando criança, adolescente e adulto. Propositadamente não digo que são três atos, pois sinto-os desconexos como história. A liga que se dá entre estas partes é apenas a presença do personagem, sem haver uma trama definida que seja acompanhada pelo espectador. Atenção: de forma alguma digo que deveria ser aquele filme clássico, com um conflito claro e seu posterior desdobramento. Os cineastas devem ousar mesmo, escapar da fórmula tradicional. Mas não considero este caso aqui. É arrastado, excessivamente contemplativo, abusando dos tempos vazios a fim de construir um clima que, na minha visão, não se concretiza. A terceira parte, que tinha tudo para ser muito boa, é chata demais. Não tenho outro termo: é chata mesmo – demora para acabar.

A única parte que realmente agrada é a primeira, intitulada “Little”. Tem um ritmo mais intenso e bem construído, e a presença do premiado Mahershala Ali (que admiro desde a época em que o assistia no seriado “The 4400”, ainda com seu nome completo – Mahershalalhashbaz Ali), que interpreta o traficante Juan, marca definitivamente a vida do personagem central ainda quando criança. Vemos surgir conflitos importantes que poderiam ser melhor trabalhados, mas que perdem força no decorrer da história. Por sinal, é nessa parte que há a sequência mais bela do filme, quando observa-se a convivência entre Little e Juan, em especial nas cenas dentro do mar.

Fez-se um alarde enorme sobre a questão da homossexualidade de Chiron. Sem dúvida, trata-se de algo importante para compreendermos as angústias do personagem, devido à dificuldade em se enquadrar tanto na sociedade quanto dentro de si próprio, o que afeta sua personalidade. Mas nem de longe se torna um tópico fundamental, se comparado a outros temas que surgem ao longo da projeção, como a existência de um contexto que empurra os jovens à criminalidade, o preconceito ou a importância das raízes familiares.

Respeito muito a escolha de um filme ousado como esse para vencer o Oscar. Sempre gosto quando o “queridinho” é desbancado, como foi o caso de “La La Land: cantando estações” neste ano, ou do chatérrimo “O regresso” no ano passado (que perdeu para “Spotlight: segredos revelados“). Mas devo dizer que considero o filme musical de Damien Chazelle melhor que “Moonlight”, apesar de nenhum deles ter o impacto dramático e artístico que senti com “Manchester à beira-mar”.

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