“Juventude” faz bem para os olhos, faz bem para alma

youth_02Os filmes que correm por fora do circuito comercial, simbolizado pelas salas multiplex dos shoppings, acabam perdendo um pouco de visibilidade. Nesta toada, parte do público acaba por não perceber algumas oportunidades que passam.

“Juventude” é uma obra-prima que está em cartaz em apenas dois cinemas na cidade. O filme foi dirigido pelo italiano Paolo Sorrentino, que para muitos é um desconhecido. Porém basta mencionar o filme anterior dele para que as credenciais se valorizem: “A grande beleza” ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro há dois anos.

Neste ano, em que houve muitas reclamações a respeito da ausência de profissionais negros nas indicações ao Oscar, lembro de ter visto também algumas tímidas menções ao lamentável esquecimento de “Juventude”, que na época somente tinha o seu título original – “Youth”. Vale a rápida explicação à parte, que apesar do diretor ser italiano e se tratar de uma coprodução entre Itália, França, Reino Unido e Suíça, o filme é todo falado em inglês.

Mas voltando à questão relacionada ao Oscar, é curioso este filme não ter sido lembrado pela Academia. Seu protagonista está sublime (Michael Caine, no alto de seus 83 anos), expondo sua longa experiência nas telas num personagem difícil de tão contido e introvertido. As músicas do filme são muito boas, mesclando clássico e pop, o que torna o filme muito moderno, mesmo com a temática que tem, e sobre a qual falarei em breve. A fotografia também trabalha grande alternâncias, com planos muito abertos, que valorizam a paisagem idílica onde se encontram os personagens, e planos bem próximos, que focalizam os rostos deles como se estivéssemos “coladinhos”.

Fred Ballinger é um maestro e compositor que se encontra num SPA na Suíça. Tem a companhia de Mick Boyle (Harvey Keitel), que é um velho amigo e diretor de cinema que planeja seu último filme. Também tem a companhia de sua filha (Rachel Weisz) e de um ator frustrado (Paul Dano). Ballinger não quer mais atuar em sua profissão, como ele próprio diz, por razões pessoais. Ele desistiu de trabalhar e desistiu da vida, como diz num determinado ponto da história. Aos poucos, começa a refletir mais a respeito de seu contexto de vida, à medida que os acontecimentos se desenvolvem.

Obra-prima

No início deste texto eu disse que se trata de uma obra-prima. Claro que é algo muito determinista e pessoal falar algo assim. Mas gostaria de defender meu ponto de vista. Em primeiro lugar, devemos passar pelo elenco. Não se trata de um cast óbvio, pois diferente de produções com chancela hollywoodiana, opta por ter encabeçando o elenco atores que não estão no primeiro time de mega-astros. Dois são bem idosos, enquanto os outros dois são atores em ascensão, mas que não tem grande apelo midiático. Talvez isso tenha feito o filme ganhar sua força, pois não nos concentramos na figura do artista em si, mas na obra inteira, na qual os personagens são uma das engrenagens que fazem ela funcionar. Não posso deixar de mencionar a rápida e ótima aparição de Jane Fonda, que dá mais uma pitada de emoção para o filme.

Contei logo acima qual é a história do filme, mas há algo que sempre vai além da história: o tema. O filme é uma reflexão sobre a existência. E quando fala-se de existência, fala-se sobre o que desejamos da vida, o que fazemos enquanto somos jovens, o que esperar do futuro, como conviver a velhice. Uma das questões que mais mexeram comigo foram as reflexões de Ballinger sobre como os jovens enxergam a velhice – eles acham que sabem o que os velhos sentem, mas na realidade não sabem nada. Claro que eu estou resumindo o que ele diz, mas sua reflexão deixa bem claro que somente quando se chega à velhice e se está mesmo sentindo-a na pele é que temos a real dimensão do que é.

Falei da questão da alternância técnica de enquadramentos e temas musicais. Pois não para nisso. O filme também transita entre o drama e o cômico. Seus personagens secundários são inusitados, como o excêntrico instrutor de escalada, o menino violinista, a Miss Universo que desfila sua beleza e quebra estereótipos com sua sagacidade, e um dos personagens mais divertidos – um simulacro de Diego Armando Maradona, que rasteja pelo SPA com sua enorme tatuagem de Marx nas costas. Isso mostra mais uma vez a influência direta de Fellini sobre Sorrentino, pois o primeiro era notabilizado pelos seus personagens bizarros e instigantes.

Cada personagem tem seu momento especial, quando o filme se preocupa em expor seus desejos, lembranças e frustrações. Isso tudo simbolizado por imagens muito bem compostas e criativas.

O filme não segue a lógica linear do roteiro tradicional. Ele é repleto de momentos isolados, pouco significativos para uma possível “trama principal”, mas fundamental para lidar com a temática da existência, da percepção sobre o mundo e o meio.

“Juventude” termina com uma cena sublime. Este adjetivo não é referente à sua beleza plástica. Até há uma certa beleza, mas não é aí que mora seu encanto. Trata-se de um desfecho muito coerente com a história que acompanhamos, no qual podemos vivenciar uma catarse plena, que alimenta ainda mais todas as reflexões que o filme gerou no decorrer de sua exibição.

Não percam! Vale a pena ver no cinema, em tela grande, com o som ao máximo. Não é no cineplex, mas basta ir lá no Belas Artes que dá para assistir!

SET DEL FILM "LA GIOVINEZZA" DI PAOLO SORRENTINO.FOTO DI GIANNI FIORITO

 

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