A invenção de Hugo Cabret homenageia o amor pelo cinema

Martin Scorsese é um apaixonado por cinema. Não se trata apenas de um grande cineasta, com senso estético e capacidade narrativa diferenciada. Ele é um estudioso. Assistir às entrevistas e documentários que ele participa nos dá a noção exata do grau de interesse que ele possui pela arte cinematográfica. Conhece filmes do mundo todo, aprecia as diferenças estéticas, busca preservar obras antigas, a fim de que sirvam como instrumento de inspiração para os futuros cineastas. O cineasta americano investe seu próprio dinheiro na preservação destes filmes por meio da Film Foundation, sem medir esforços rumo a seus objetivos. Poderia guardar estas verbas para financiar um de seus projetos, como o filme “Silence”, que até hoje não conseguiu emplacar, mas opta em manter vivas as películas antigas que sofrem a deterioração do tempo com muita facilidade. Mais sobre isso pode ser lido no excelente livro de Richard Schickel lançado ano passado pela Cosac Naify.

Scorsese olha o passado com profunda reverência, na busca de utilizar as experiências realizadas por artistas do início do cinema e criar sua própria expressão, metabolizando as informações em sua sensibilidade e criando obras originais. Assistir aos filmes de Scorsese possibilita o pulsar das referências, da volta ao passado. E isso não torna suas obras chatas, carregadas ou acadêmicas: apenas torna mais densa a consistência da narrativa, permite que o artista trabalhe com um olhar mais abrangente a respeito das possibilidades de criação.

Assistir ao filme “A invenção de Hugo Cabret” (Hugo, EUA, 2011) possibilita vislumbrar as afirmações colocadas acima de forma contundente. A história do menino que mora nas paredes de uma estação ferroviária em Paris, fazendo a manutenção dos enormes relógios do local, é uma desculpa para entrar num universo mágico diretamente relacionado ao encanto do cinema. Não é um filme que busca ensinar sobre cinema de forma histórica, e sim exaltar a beleza da mágica, do encantamento, do sonho por trás da película iluminada. Para prestar esta homenagem, utiliza como personagem um dos grandes ilusionistas da história do cinema. O filme está indicado a vários prêmios Oscar, e acredito que alguns poderá vencer, quem sabe até o de melhor filme.

Como dito antes, Scorsese busca metabolizar o histórico por meio de sua sensibilidade. Neste caso específico, encontra na tecnologia do 3D a parceira ideal para atingir este transformação. Os ângulos de câmera, as movimentações e enquadramentos saltam (literalmente) aos nossos olhos. Quando assistimos ao filme “Avatar”, de James Cameron, a experiência 3D já foi marcante. Porém aqui vemos algo novo, pois afasta o 3D da mera aplicação em filmes de aventura e ação para inserir a tecnologia num filme dramático. O mundo do pequeno Hugo Cabret ganha texturas e formas graças a isso, além da opção pela fotografia mais escura e densa, como visto em “Ilha do medo”, filme anterior de Scorsese, sobre o qual já escrevi neste blog. As engrenagens, paisagens e ambientes profundos ganham uma força incomum. O filme foi realizado diretamente em 3D, o que lhe dá um aspecto único, diferente daqueles filmes que são feitos em 2D e depois ampliados para 3D, num procedimento que devemos assinalar como “caça-níquel”. Scorsese incorpora a linguagem do 3D na sua narrativa.

O cineasta americano presta uma homenagem ao início do cinema, encantando tanto aqueles que já conhecem o tema, quanto outros que não conheciam. Não aprofundarei no conteúdo desta homenagem, pois é mais interessante o espectador descobrir estas informações no decorrer do filme. Ver um protagonista que é uma criança, envolvido com experimentos mágicos, nos faz acreditar que se trata de um filme infantil. Porém não é nada disso. É um filme que possui a sua ingenuidade, porém com uma paixão que reflete algo que nasce em nós pequenos mas que, como pode ser visto no próprio Scorsese, durará até a morte.

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