Possuída – Natalie abraça o Cisne

Ela está possuída. As atenções se concentram em todas as cenas sobre Natalie Portman. A antes ótima atriz agora mostra-se excelente, mesclando delicadeza e loucura, intensidade e suavidade em Cisne Negro (2010). A crise está instaurada desde os primeiros planos, num sonho intenso que transforma-se num pesadelo agitado e perturbador. Daí em diante, testemunhamos o tour de force da bailarina que quer encenar o Lago dos Cisnes no papel do Cisne Branco e do Cisne Negro.

Descrever os acontecimentos somente estragaria a experiência do espectador. Sim, assistir ao filme de Darren Aronofsky é uma experiência particular. Este cineasta, que há uma década vem trazendo filmes diferenciados, como “Pi” e “Requiém para um sonho”, faz aquilo que está acostumado: apuro na fotografia e na edição em função de uma narrativa intensa e perturbadora. Mexe com nossos sentidos e nos envolve na trama a ponto de não permitir piscar.

As danças não se limitam à plasticidade do movimento dos bailarinos, pois são acompanhadas por uma câmera na mão milimetricamente calculada que filma os passos dos artistas contornando o tablado em círculos opostos às figuras à sua frente. Sem falar nas imagens que literalmente mostram a dualidade entre as cores brancas e negras.

À medida que o filme progride, a mente da bailarina prega-nos peças. Chega ao ponto do cineasta utilizar metáforas físicas para significar seu estado de espírito. Mas o resultado é fundamental para entrarmos no interior da personagem de uma forma que dificilmente consegue-se na produção cinematográfica contemporânea.

Natalie está possuída, sim. Sua personagem ainda mais. Mas o resultado, quando acendem as luzes no término da projeção, é a certeza de que possuídos ficamos nós.

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4 comentários sobre “Possuída – Natalie abraça o Cisne

  1. Tenho dificuldade para embarcar nos filmes do Aronofsky. Acho que ele peca pelo excesso, e as coisas acabam ficando meio gratuitas. Um exemplo: Cisne Negro, a câmera em alguns momentos parece ser tremida de propósito, como quem diz: “olha, estou usando uma câmera na mão”. Tudo bem, já me disseram que essa câmera tremida contribui para causar uma certa apreensão no espectador e demonstrar a instabilidade da personagem. Pode até ser, mas sempre tenho a impressão de isso ser mais usado para que o filme pareça mais moderno, antenado com a estética do dito “cinema independente”. Para mim, essas coisas mais parecem cacoetes, que deixam o filme meio pedante. Feita a ressalva, tenho que reconhecer que o filme tem qualidades: algumas imagens são realmente perturbadoras e a tensão do filme nunca perde a intensidade. A edição é, de fato, muito eficiente. Também se propõe um conflito na arte entre a perfeição estética e a emoção, que pode gerar uma discussão interessante.

  2. Paulo, obrigado pelo comentário. Observações muito pertinentes. Porém, eu estou na turma do lado de cá, que acha que a movimentação de câmera funciona muito bem, não apenas para a tensão, mas também como o próprio balé das imagens.
    Abraço!

  3. Hugo adorei o comentário realmente a atuação da NAtalie foi sensacional…ahhh gostei do blog, continue postando coisas legais um abraço.

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