O herói fragilizado

O faroeste é um dos gêneros mais conhecidos do mundo cinematográfico. Foi predominante por décadas, porém viu sua decadência após os anos 70. Mas, no ano de 1992, surgiu o filme que estaria ensaiando sua retomada. Foi “Os imperdoáveis” (Unforgiven), dirigido e estrelado pelo ator Clint Eastwood, conhecido por personagens durões e heróicos, protagonista de inúmeros faroestes e filmes policiais.

A premiação no Oscar, no ano de 1993, foi a consagração. Recebeu as estatuetas de melhor filme, diretor, ator coadjuvante (Gene Hackman, fazendo o delegado facínora — Little Bill Daggett) e montagem. Mas a nascente ascensão não deu certo, e esta obra ficou isolada no tempo, somente figurando como um clássico moderno, deslocado de qualquer contexto comercial.

Clint Eastwood constrói a saga de William Munny, um ex-pistoleiro que desistira da vida criminosa, dos assassinatos e da crueldade graças à esposa, que o reabilitara. Pai de duas crianças, é apresentado ao espectador num momento típico: chafurdando na lama junto aos porcos. Agora um fazendeiro simplório, será tentado a viajar para uma cidade no Wisconsin, a fim de matar dois vaqueiros que retalharam uma prostituta e, assim, receber uma grande recompensa.

A história é um claro exemplo dos métodos de criação da saga do herói. Um exemplo efetivo e eficiente, onde há um personagem complexo, que transita entre a bondade e a iniqüidade, lutando contra os princípios que defendia, respeitando a memória da esposa e, ao mesmo tempo, necessitando voltar às atividades do passado graças à penúria de sua vida e à fidelidade aos parceiros.

O filme é dedicado a dois mestres do gênero: Don Siegel e Sergio Leone. Ambos dirigiram Clint no passado. É clara a influência deles na abordagem temática, na dualidade paradoxal entre sutileza e virulência dos acontecimentos. Os personagens são bem estruturados, adquirindo grande humanidade, como o pistoleiro míope, que é o arauto da história, declarando-se um exímio matador, porém demonstra-se, ao correr da película, outro completamente diferente. O xerife Little Bill Daggett inverte o arquétipo clássico do “deputy” americano, que sempre era o herói, combatendo os criminosos e ficando com a mocinha no final. É o personagem mais cruel e violento. William Munny, que é o pistoleiro assassino, acaba tornando-se o herói da trama. Ele passa pelas mais variadas situações, dando a impressão de que teria uma reviravolta completa na sua personalidade, ou que o enredo iria dirigir-se a algo diferente do usual. Estas alternâncias são valorizadas, e enriquecem os acontecimentos, fragilizando este anti-herói, despindo suas vulnerabilidades, assim como faz com todos os outros.

Algo muito importante, apesar de parecer meramente uma ilustração estética, está na abordagem lírica, onde retrata-se o personagem principal, num plano geral belíssimo, encarando a sepultura de sua esposa. Tudo isso ilustrado por uma bela trilha sonora. Após a conclusão da história, a mesma paisagem é exposta, fechando um ciclo e trazendo-nos conclusões a respeito da conduta do herói.

O clímax principal é uma das cenas mais marcantes do filme. O encontro final entre o xerife Little Bill e William Munny mescla enquadramentos bem trabalhados, uma montagem muito eficiente e diálogos poderosos. É realmente um retorno aos clássicos combates finais, como em “Onde começa o inferno” (Rio Bravo, de Howard Hawks), “O homem que matou o facínora” (The man who shot Liberty Valance, de John Ford) ou o clássico “Matar ou morrer” (High Noon, de Fred Zinnemann).*

*Este texto foi escrito em 2004.

Anúncios

2 comentários em “O herói fragilizado

Adicione o seu

  1. Eu cresci assistindo faroestes ao lado do meu avô. Principalmente às sextas nas finadas sessões da Record (se não me engano, antes da Sessão Especial, com filmes de kung fu, por sua vez antes da Sala Especial, que dispensa comentários…). Eu sempre me amarrei naqueles caras brutalhões, que resolviam tudo na bala. Achava aquela história dos duelos algo dotado de um conceito de honra sem comparação. W. Munny, apesar de toda aquela marra e comportamento inapropriado, é encharcado (piadinhas à parte) desse conceito de honra. Esse, na minha opinião, é um dos aspectos mais interessantes no filme.
    Até hoje sou meio fanático pelo gênero, tanto que sempre que tenho um tempinho, assisto a Blackwood, devidamente salva no meu desktop.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: