A violência escancarada de “Cães de Aluguel”

Muitas das pessoas que gostaram de “Bastardos inglórios” e dos dois volumes de “Kill Bill” não assistiram ao aclamado filme de estreia de Quentin Tarantino – Cães de aluguel (Reservoir Dogs, 1992). Este filme foi um dos responsáveis pelo salto de importância que passou a ser dado aos filmes independentes americanos.

Tarantino, um ex-atendente de vídeo-locadora, aficionado por antigos seriados de televisão, canções “underground” e, principalmente, literatura barata — as, agora, conhecidas “pulp fictions”, eternizadas pelo seu filme seguinte — conseguiu concentrar inúmeras referências dentro de uma história simples, porém cheia de pequenos detalhes que vão enriquecendo a trama, pontuando a ação. A simples menção de uma única atriz — Pam Grier, que depois atuaria no terceiro filme do diretor, “Jackie Brown” — faz toda uma referência e homenagem aos seriados de temática negra, violentos e “sensuais”, que rodavam na década de 1970. Sem deixar de citar algo que é muito mais presente em sua curta obra, por enquanto composta de três títulos: a inclusão, exatamente, destas músicas dos anos 70, muito populares, canções de rádio baratas que adquirem novo valor, ao serem utilizadas como trilha das cenas contruídas pelo gênio perturbado. O auge desta forma encontra-se exatamente em “Jackie Brown”.

Um assalto a uma joalheria — que nunca é mostrado —, frustrado pela aparição súbita da polícia, é a pequena desculpa encontrada para iniciar a construção desta obra-prima do gênero. Talvez hajam aqueles que considerem absurda tal classificação. Seria “Pulp Fiction – tempos de violência“, vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes de 1994, o melhor filme do diretor? Quem sabe? Mas, “Cães de aluguel” inicia um modo de olhar a violência tal qual não havíamos experimentado antes. Existem vários filmes clássicos e respeitáveis do gênero, desde “O falcão maltês – relíquia macabra“, de John Huston, até “Operação França“, de William Friedkin e “Chinatown“, de Roman Polanski, isso para ficarmos apenas nos mais conhecidos (não estou citando os filmes de gângsters dos anos 30). Porém, a estrutura do filme de Tarantino superpõe a simplória trama, revelando aos poucos todos os elementos que poderiam ter sido entregues prontamente ao expectador, criando uma trajetória cíclica não-linear, onde o “flashback” não serve como ferramenta de explicação, como usualmente o fazem, e sim como uma alternativa mais criativa para inserir o público aos poucos na história, tornando-o, de início, uma testemunha e, a partir de certas informações, um cúmplice das personagens. Este recurso fora tão bem utilizado, com os mesmos fins, no clássico “Cidadão Kane“, de Orson Welles.

Grande roteirista, Quentin Tarantino despontou no início dos anos 90, escrevendo filmes como “Amor à queima-roupa“, de Tony Scott, além dos três filmes que dirigiu e “Parceiros do Crime“, de Roger Avary — seu parceiro no roteiro de “Pulp Fiction”. Também é o criador da história original do polêmico “Assassinos por natureza“, de Oliver Stone. Sua aceitação é contraditória, muitos o acusam de sacralizar e banalizar a violência, outros preferem enxergá-lo como um excepcional contador de histórias, principalmente ao prestarmos atenção aos seus diálogos, extremamente velozes e inteligentes, com uma clareza ímpar, mesmo quando tratam dos assuntos mais absurdos possíveis, como a crença de um dos personagens em recusar pagar gorjetas a garçonetes, ou uma das famosas cenas iniciais de “Pulp Fiction”, onde se discute porquê na França o “Quarteirão com queijo” do McDonald’s chama “Royale com queijo”.

Por falar em início, a seqüência inicial de “Cães de aluguel” é digna de menção. Aparentemente sem nenhuma relação com a história, encontram-se os comparsas distribuídos em uma mesa redonda de lanchonete, discutindo a respeito de canções, principalmente “Like a virgin”, da Madonna, da qual o próprio Tarantino — fazendo um dos personagens — explica o significado. A câmera vai rodeando a mesa, enquanto os criminosos discutem esses assuntos — além de “Like a virgin”, há o já citado caso da gorjeta e um problema com uma pequena agenda misteriosa. Após esta cena, os letreiros iniciais adquirem um caráter clássico, ao apresentar toda a quadrilha, numa seqüência em câmera lenta, como um esquadrão avançando em nossa direção, com um som dos anos setenta rolando solto. É apresentado o elenco, formado por grandes atores, porém que não podem ser considerados astros: Harvey Keitel, Chris Penn, Tim Roth, Michael Madsen, Steve Buscemi, além de Laurence Tierney, veterano dos anos 40 e 50, representação dos vilões viris, homenageado pelo diretor.

Desta cena, há uma grande elipse que irá já para a fuga dos criminosos com um dos personagens se retorcendo no banco traseiro do automóvel em grande velocidade, sangue cobrindo todo o estofamento, o som do pneu derrapando e a borracha fritando no asfalto. O filme passará praticamente dentro de um galpão, onde os assaltantes aguardam a chegada do chefe. É em meio a esta espera que os elementos vão sendo apresentados, até esta sucessão de revelações culminarem na retomada da cena do personagem que fora atingido no momento da fuga. Porém, a conclusão da história ainda está para acontecer, de maneira surpreendente.

O mérito de Tarantino na realização de “Cães de aluguel” está no retrato cru que ele tece a respeito da violência. Os criminosos são ameaçadores, sádicos, impiedosos, porém também possuem seu código de ética. Tratam a profissão como outra carreira qualquer, na qual lidam com fidelidade, competência e certa moral. Não que sejam doces, ou qualquer outra coisa parecida. Muito pelo contrário. Ao suspeitarem que um dentre eles é um traidor, aquele que botou todo o serviço a perder, entram em parafuso, acusam-se, brigam. Uma das cenas mais belas é na briga entre Mr. White e Mr. Pink — os criminosos utilizam cores para se identificar, não podendo nunca revelar seus nomes, para não correrem riscos —, na qual um deles acaba no chão, recebendo inúmeros chutes, rodando sobre o próprio eixo para a esquerda, enquanto a câmera ia para a direita. Há outras questões que são levantadas. Uma das seqüências mais famosas do filme trata-se da tortura de um policial capturado por um dos integrantes do bando. Além das atrocidades cometidas, há certo momento em que o carrasco, num plano-seqüência, caminha dentro da armazém — em meio a gritos da vítima e uma música que toca no rádio — até sair do recinto e partir para rua — totalmente silenciosa e tranqüila —, onde está estacionado seu automóvel, de onde retira um latão de querosene, o qual utilizará para incinerar o policial. Está aí uma menção à questão da localização e camuflagem da violência, onde nos menores lugarejos podem estar acontecendo coisas terríveis, mascarada por um casulo de calmaria.*

*Este texto foi escrito em 2004, mas sofreu algumas alterações

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Um comentário sobre “A violência escancarada de “Cães de Aluguel”

  1. Por que a violência exagerada não ofusca o brilho dos roteiros/filmes de Tarantino ?

    Bem, alguns desavisados vão desde já discordar, achando que Tarantino tem mão pesada para violência, mas a verdade é que para a maioria dos amantes da sétima arte a resposta a questão acima é: Não ofusca porque ele tem bom domínio da narrativa e não trabalha somente com caracterizações estereotipadas de personagens (ao contrário do que outros desavisados também vão dizer).

    – Narrativa –

    A narrativa não-linear bem orquestrada mantém a curiosidade e atenção à cada cena, pois em várias delas quando a cena “vira” (término de uma cena dando gancho para a outra) ele deixa vários itens dramáticos em suspensão.

    Exemplos…

    Cães de Alguel: Como já disse Hugo Harris em seu post, a narrativa, conta com uma elipse que omite as imagens do roubo a joalheria. Isso possibilitou a Tarantino realizar o seu filme de estréia, pois ele não tinha grana, mas não foi só isso. Não poupou somente os gastos com a cena dos policiais (que geraria um bocado de gastos com figurantes, cenografia, etc;). A elipse também reforçou a questão trazida pelo personagem Mr. Pink que é: “Algum FDP nos traiu, precisamos saber quem foi”. Tarantino usou a limitação criativa, coisa da qual muitos de nós reclamamos ao realizar qualquer trabalho, a seu total serviço, fazendo-nos ficar curiosos pra saber quem afinal é o traidor do bando de ladrões.

    Pulp Fiction: Após a a seqüência de Vincent e Jules entrando no apartamento para cobrar Bret e seus amigos, depois de todo aquele tiroteio vamos para uma situação que aparentemente não tem relação direta com a anterior, mas que apesar disso apresenta um personagem já comentado na cena anterior: Marsellus Wallace. Em Pulp Fiction as elipses e idas e vindas do roteiro, tendem a fazer o espectador montar sua ordem da história ao final da projeção, embora eu acredite que o argumento deva ter sido feito de forma linear e embaralhado na escaleta.

    -Personagens-

    Tanto em Cães de Aluguel, Pulp Fiction, ou mesmo no recente Bastardos Inglórios, pode-se observar a ausência de um protagonista principal. Quando ele adota multi-protagonismo, aliando as questões de narrativa que mencionei acima, traz riqueza ao filme.
    Observando Cães de Aluguel e Pulp Fiction, vê-se que os dois filmes tem mais um protagonista ativo, cada qual conduzindo cenas próprias. Além disso cada desses persnagens tem diversas dimensões: Mr.White (Cães de Aluguel) é um criminoso bem-sucedido, mas além disso tem um grande senso de humanidade, pois ajuda um desconhecido que pode vir a ser (e de fato é) um traidor. Jules (Pulp Fiction) é um matador que se converte a cristão fervoroso ao se deparar com algo que interpreta como sendo uma intervenção divina (o tiroteio do qual ele e Vincent escapam ilesos).
    Grande parte do elenco tem a oportunidade de causar empatia, pelas ações ou pelos (geniais) diálogos. Além do já dito, toda violência mostrada na tela tem motivação coerente com o universo da estória contada.

    Comparando Tarantino a um de seus colaboradores, já inclusive citado neste post, o apagado Roger Avary, pode-se concluir mais ou menos o que expus acima: Que Tarantino não ofusca sua composição com as cenas de violência extrema pois é hábil com seus personagens e com a narrativa.
    Quem viu “Parceiros no crime” (Kiling Zoe), que é dirigido/roteirizado por Avary e produzido por Tarantino, vai achar um pouco de multi-protagonização, violência e ironia dramática, porém sem a habilidade nas composições de personagens ou uma narrativa inteligente. O resultado ? O esquecimento. Ninguém conhece o filme apesar de ser uma produção de parceria França/Eua e contar com atores medianamente conhecidos à época do lançamento.
    Avary teve até uma oportunidade de despontar como roteirista recentemente, escrevendo para a direção de Robert Zemeckis e contando com avanços tecnológicos, no morno filme “A lenda de Beowulf”, mas denovo, passados alguns anos: esquecimento.

    Concluo dizendo que, pelos motivos citados e diversos outros, quando vemos cenas de violência escancarada em “Assassinos por natureza”, “Amor à queima roupa”, “Cães de Aluguel”, “Pulp Fiction”, “Kill Bill” e nos demais filmes de Tarantino, falamos inconscientemente pra nós mesmos: “É o Tarantino cara! Ele pode! Ele é Fodástico!!!”

    Aloysio Roberto Letra

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