Aqueles que naufragam quando na ascensão das águas

“A moral burguesa é, para mim, uma imoralidade contra a qual há de se lutar; esta moral que se baseia em nossas instituições sociais mais injustas como o são a religião, a pátria, a família e a cultura, em suma, o que se denomina os pilares da sociedade.”

Luis Buñuel

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A epígrafe acima resume os preceitos do grande cineasta espanhol Luis Buñuel, o qual, na década de 1920, realizara um dos filmes pontuais do movimento surrealista — O cão andaluz — junto ao pintor e amigo Salvador Dali. A partir deste filme e daqueles que se seguiram, principalmente durante a fase em que o artista permaneceu no México, Buñuel foi criando uma obra de grande expressão, sempre preocupada em tratar um desses assuntos que lhe interessavam.

O último filme da fase mexicana é este “O anjo exterminador” (El angel exterminador, 1962), baseado numa história anterior do próprio cineasta junto a Luis Alcoriza, nomeada “Los naufragos de la calle de la providencia”. Tendo como início um jantar numa mansão após uma noite de ópera, os convivas acabam presos dentro do “living” pra onde haviam se dirigido para festejar. Tomados por uma súbita abulia, acabam entrincheirados em meio a figuras celestiais, pessoas nem sempre conhecidas, ou sequer amistosas, pouca comida e a animosidade que vai tomando conta do comportamento dos mais desesperados.

Junto ao posterior “O discreto charme da burguesia”, esta pode ser considerada a obra de maior crítica à elite, descrevendo, com precisão e sem moralismos, a podridão dos costumes através destes burgueses esnobes e tiranos.  Enquanto o tempo vai evoluindo, alguns acabam amansando, mas o que vemos na maioria é o ser humano cada vez mais próximo de tornar-se irracional, levado por instintos de sobrevivência, mesclados por sentimentos muitas vezes assistidos, como o egoísmo e a violência.

A construção narrativa é feita com total simplicidade, sem arroubos técnicos, porém com grande inteligência. A simples repetição de determinada cena, somente alternando o ângulo de câmera onde, na primeira situação retratava os burgueses como dominantes e, na segunda, colocando-os como que observador pelo anjo que estaria preparando-os ao encantamento, subservientes a seus destinos. Os movimentos de câmera aproveitam a amplitude do cenário, caminhando em longos “travellings” circulares para poder aproximar-se das personagens. As alucinações, como de costume na obra buñueliana, misturam-se à história, criando um clima onírico à realidade, tornando esta um permanente “nonsense” que acabará virando para o espectador o retrato da verdade do contexto, substituindo a conhecida “suspensão da descrença” que tanto os americanos repetem.

O retrato da burguesia desde o início é criado para considerá-la a mais vil, cruel, desumana e imoral faceta da sociedade, desde o comportamente dos patrões com empregados, os maldizeres, a hipocrisia, o adultério, a vaidade, a desconsideração ao próximo, a imoralidade (a qual é tratada com a maior naturalidade e complacência), além da inevitável ironia sórdida. Como parte da construção narrativa, há a rígida apresentação, um a um, daqueles que ficarão aprisionados. Em certo trecho, uma das convidadas confessa ter sofrido muito com a morte de um príncipe conhecido dela, mas que não se sentira sensibilizada ao vislumbrar dezenas de pobres esmagados num acidente de trem, pois considera que as pessoas baixas — este é o termo utilizado por ela — não devem sentir dor como eles — a elite — sentem. Compara os pobres a animais de abate, serviçais descartáveis e peças facilmente substituíveis.

O anjo exterminador atua como carrasco destes seres ingratos, que em sua posição vantajosa preferem pisotear os menores e escarafunchar os focinhos no caviar, vivendo a promiscuidade entre suas paredes douradas. Tanto que os empregados, logo de início, debandam da mansão por motivos inexplicáveis, ficando apenas o mordomo, símbolo de uma aceitação ao comportamento patronal, que poderia ser comparado aos antigos “capitães do mato”.

Porém, como tudo isso seria possível? Como dito antes, os convivas são tomados de tal crise de abulia, talvez uma elevação do grau de passividade já retratado naquelas pessoas — em determinado momento, o médico presente compara o fato de se morrer ao termo “ficar completamente calmo” —. Ao se aproximarem da passagem para outro ambiente da residência, as pessoas sempre acabavam encontrando uma desculpa para evitar a continuação do movimento e, caso insistissem, ficariam prostradas, as forças esgotadas, impedindo os membros de se mexerem.

Assim, punidos pela falta de vontade e conseqüente cerceamento da liberdade, os burgueses, ainda vestidos com roupas de gala, a “casca” que esconde sua podridão, acabam reduzidos à escória, tomados pelo desespero, não somente pelas privações alimentares, como também pela pressão psicológica, o desatino de estar vivendo tal situação absurda. Levando-os a tal limite, vemos crescer, num primeiro momento, a fragilidade moral dos personagens, principalmente quando, tomados pelo medo e a incerteza, acabam querendo buscar um culpado pela situação, como se isso fosse abrandar o horror daquela situação.

Visto como exilados pela população — também incapacitada de entrar no local —, externa àquela situação, a casa é colocada em quarentena, dando oportunidade para o aparecimento de aproveitadores, comerciantes, políticos e autoridades.

Algumas cenas são dignas de elogios, como o ataque da turba furiosa e faminta, que pula sobre os cordeiros (?) que invadem a casa, devorando-os. A disputa pela água conseguida através do rompimento sofrido de um cano na parede da sala. Ou até mesmo toda a seqüência final, que não irei revelar a fim de não estragar o desenlace da trama.

Por fim, não posso deixar de citar a sempre presença da crítica à Igreja, feita por este cineasta extremamente religioso, mas que sabia, como ninguém, expor a hipocrisia do credo e a falibilidade das convenções. Neste filme, apesar do tom religioso imposto desde o início, com cantos gregorianos, sinos badalando e imagens da porta de uma catedral, a crítica fica em segundo plano, porém não em menor expressão. São pequenas frases, algumas referências, como o costume do Homem em apelar a Cristo na adversidade, quando durante sua existência e bons momentos, virara as costas a ele, considerando-o desnecessário. O desfecho remete a esta afirmação, além da máxima de que, apesar de descobertas suas artimanhas, o anjo exterminador nunca descansará.*

*este texto foi escrito em 2004

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Um comentário em “Aqueles que naufragam quando na ascensão das águas

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  1. Só essa frase do Buñuel… Nossa! Tenho “O Discreto Charme da Burguesia”, mas não cheguei a assistir. Bom, logo menos rs. Agora que li o texto vou ficar inquieta para adquirir também “O Anjo Exterminador”. Embora antigos esses filmes passam uma ralidade que só se firmou com o passar dos anos, tanto que, pelo andar da carruagem, são filmes que não importa quanto tempo passe sempre irão representar a atualidade. Deveriam ser vistos e tratados como filmes educacionais rs.

    Abrs.

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