“Ilha do medo” vale uma reflexão

Existe um certo risco ao irmos assistir a um filme de um diretor renomado como Martin Scorsese: decepcionarmo-nos. Geralmente, devido à capacidade do artista, este risco acaba não se confirmando, superado pela qualidade de mais uma das peças de sua obra. Porém, não foi isso que verifiquei ao ir assistir ao “Ilha do medo” (Shutter Island, EUA, 2010).

Sempre dizem que não é bom assistir a algo cheio de esperanças. Mas como negar a perspectiva de ver um bom filme quando se trata de um dos maiores cineastas americanos em atividade, autor dos já clássicos “Taxi Driver” e “Touro indomável“, do majestal “Os bons companheiros” e dos corretos, mas duvidosos, “O aviador” e “Os infiltrados”?

Martin Scorsese é um dos maiores estudiosos de cinema da atualidade. Conhece diversas filmografias, tanto de cineastas específicos, quanto de países específicos – por sinal, é um grande admirador de Glauber Rocha. “Respira” cinema 24 horas por dia. Ele se inspira nos filmes de sua infância, os quais assistia nas diversas sessões que vivenciava em Nova York. Scorsese domina a linguagem, o que é incontestável. Mas nem sempre é possível acertar em cheio. Acredito que este é um dos momentos de erro do americano (o que já havia acontecido ao realizar “Gangues de Nova York”).

São evidentes duas fontes de inspiração em “Ilha do medo”. A primeira está na temática de “Paixões que alucinam“, de Samuel Fuller, admiração declarada de Scorsese e que pode ser verificada em “Uma viagem pessoal pelo cinema americano” (documentário realizado em três partes e transcrito e publicado pela Editora Cosac Naif). O filme de Fuller também se trata de uma investigação dentro de um instituto psiquiátrico, mas nele o personagem principal é um jornalista. Seu destino é muito similar ao destino que o personagem de Leonardo DiCaprio, um agente federal, experimenta. A segunda fonte seriam os romances kafkianos, onde o personagem principal sempre se encontra em situações fora de seu controle devido a uma estrutura burocrático-ditatorial que o reprime e impede que seus passos progridam. (uma observação se faz necessária: de acordo com minha análise, este filme teria de tudo para eu gostar, pois envolve pelo menos dois artistas que admiro muito e que vocês podem ver fotos deles no cabeçalho deste blog. A segunda foto do cabeçalho é de Franz Kafka, enquanto a terceira, logo ao lado, é do próprio Scorsese)

Claro que há elementos positivos em “Ilha do medo”. A iluminação e textura de imagem presentes na fotografia do premiadíssimo Robert Richardson e a utilização da trilha sonora compõem o clima tenso e ao mesmo tempo alucinatório da história. Também as presenças de Ben Kingsley e do bergmaniano Max von Sydow são extremamente eficientes e marcantes.

Mas, então, o que não funciona?

Simplesmente não funciona a parte mais fundamental: a história. Não convence e, a partir de certo ponto do filme, torna-se óbvia. Claro que é uma trama intrigante, ainda mais por não dar um desfecho definitivo à história do personagem principal. O problema é que a história é intrigante sem ser envolvente. É construída de forma fria, mesmo tendo a preocupação em criar a tensão (o que apenas ocorre devido à iluminação e à trilha anteriormente mencionadas).

Não tive a oportunidade de ler o romance de Dennis Lehane (mesmo autor de “Sobre meninos e lobos“), o que não me permite analisar a adaptação da obra. Mas acredito que há elementos que ficaram de fora e que permitiriam um maior aprofundamento no drama e uma composição mais apurada do suspense. Pode parecer uma heresia ao falar isso a respeito de Scorsese, mas acredito que a construção visual definida por ele foi inadequada. Tanto na escolha de planos (por este motivo que ressaltei a iluminação feita por Richardson e não a fotografia inteira) quanto a montagem.

Por sinal, esta foi uma opinião que tive a respeito de “Paixões que alucinam”, o que me faz pensar que, já que este é um filme admirado por Scorsese, talvez a impressão negativa que tive foi intenção dele, mesmo que com isso corresse o risco de desagradar parte de seu público. Se esta foi a intenção, digo que foi corajoso e que o respeito por isso. Se não foi, ele realmente errou. Talvez este filme merecesse ser revisto daqui a um tempo. Ficarei muito feliz se, ao revê-lo, esta má impressão for embora. O que poderá contribuir é que pelo menos tenho a certeza que, da próxima vez que eu for assistir a “Ilha do medo”, não esperarei tanto como no último sábado.

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4 comentários sobre ““Ilha do medo” vale uma reflexão

  1. Fala, Hugo!

    Gostei da sua crítica e acho que sua opinião está bem justificada. Mas ainda não concordo com ela. hehe! Acho que a história do filme é boa, incluindo trama e desfecho. Sobre a questão técnica, não tenho como discutir por me faltar conhecimento no assunto. Mas como leigo, posso dizer que gostei dos takes e da fotografia. Na verdade, alguns deles incomodam, mas acredito ajudam a manter a tensão do ambiente. Enfim, é um filme para ver de novo – tanto para quem gostou ou não.

    Abrs e volte a escrever mais por aqui!
    Fred

  2. Hugo,

    Entendo sua crítica e até concordo em alguns pontos. Mas vi muito mais qualidades que defeitos nesse “Ilha do Medo”. Ouvi muita gente falar que ele é muito óbvio. Ok, mas talvez isso tenha sido uma escolha consciente, ou seja, acho que ele não foi pensado para ser um filme-surpresa. Explico-me: mais ou menos na metade do filme, já meio que sabemos o que está acontecendo e já temos uma ideia de qual o verdadeiro papel dos personagens na história (até a mulher que eles estavam procurando aparece, está tudo resolvido!). A partir de então (me parece que foi essa a intenção, posso estar errado) muda-se o foco do conflito, e somos convidados a entrar na insanidade do protagonista, em seu conflito psicológico. Para mim o filme funcionou bem, pois me sinto um pouco ludibriado com esses finais-surpresa. Resumindo, achei o filme muito interessante e vou revê-lo. Se eu estiver enganado, volto aqui para me retratar. rs

    Abraço

    1. Paulo, seu comentário está ótimo. São as suas impressões e respeito. Como eu já sabia deste ótimo aluno que você é, tem excelente percepção. Assista de novo, pois eu mesmo também o farei.
      Grande abraço!!!

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