A TROCA – mais uma amostra da sensibilidade de um “machão”

Acabo de assistir ao filme “A troca” (Changeling), e inevitavelmente recorro a um hábito: questionar-me com quais palavras posso – ou devo – definir Clint Eastwood. Já se passou a época em que o preconceito pelo trabalho de direção cinematográfica por parte de um ator fosse maior do que a atenção por seu talento. Este é um cineasta realmente nascido da experiência frente às câmeras, na poeira do set de filmagem, pela curiosidade quanto à narrativa e pela sensibilidade.

Como mudar o olhar sobre um homem que possui o estigma do “durão” devido aos papéis que sempre interpretou? Os pistoleiros de “Três homens em conflito” ou “Por um punhado de dólares”, ou o detetive Harry Callahan, da série Dirty Harry, ao até mesmo o sargento de “O destemido senhor da guerra” ou prisioneiro de “Alcatraz – fuga impossível”. Basta um olhar mais atento àquilo que produziu como diretor nos últimos trinta anos.

Não é necessário passar por cada obra, mas basta a menção de algumas para notarmos o quão eclético é este americano de quase 79 anos (que serão completados no próximo dia 31 de maio). “As pontes de Madison”, com seus silêncios e delicados toques, e a sensualidade de uma Meryl Streep metamorfoseada numa dona de casa interiorana que experimenta o verdadeiro amor e pulsão sexual pela primeira vez na vida quando um estranho surge à sua porta num primeiro momento apenas para pedir informações. Em “Os Imperdoáveis”, Clint visita seu gênero de origem, construindo um faroeste épico, porém pleno também pela presença de um herói complexo que mistura certa fragilidade (que não deve ser confundida com uma gratuita sensibilidade “frouxa”) com uma explosão de agressividade quanto seus demônios internos são acordados. Também não pode ser esquecida a dor intensa do personagem de Sean Penn em “Sobre meninos e lobos” e sua cruel vingança. Apenas para constar, outros também fazem parte da galeria de seus grandes filmes, como “Menina de ouro”, “Bird”, “Cartas de Iwo Jima”, “Meia-noite no jardim do bem e do mal” e até mesmo o subestimado “Poder absoluto”.

De certa forma, Clint faz um contraponto entre os acontecimentos e as atitudes do personagem de Sean Penn no citado “Sobre meninos e lobos” e o de Angelina Jolie em A troca. Ambos sofrem com a perda de um ente querido, porém a relação com esta perda e a intensidade de sua busca possui pesos contrastantes. A grande diferença está na certeza que Penn tem ao ver o corpo de sua filha barbaramente assassinada, enquanto em A troca o que paira durante grande parte de sua duração é a tortura da dúvida. E o que se torna a nossa tortura é saber desde o início que trata-se de uma história real.

Christine Collins é uma supervisora de telefonia na Los Angeles pré-Depressão que certo dia tem seu filho desaparecido. A partir deste dia, começa uma busca que dura cinco meses, até que recebe uma visita da corrupta polícia da cidade dizendo que encontrara a criança de nove anos. No momento em que a mãe coloca os olhos na criança, percebe que não é o seu filho. Convencida de que algo terrivelmente errado ocorrera e que isso apenas prejudicaria a real busca pelo seu filho ainda desaparecido, Christine não se cala. Uma cadeia de eventos se sucedem, aumentando o drama da personagem e trazendo novos elementos para conhecimento do espectador.

Clint Eastwood constrói a história aos poucos, respeitando o ritmo dos acontecimentos, sem atropelar informações, mas criando as elipses necessárias para que a narrativa evolua. A trilha sonora (escrita pelo próprio Clint Eastwood) pontua a trama com uma melodia minimalista e delicada. Esta delicadeza já é algo notório no trabalho do diretor, desde forma macro, ao analisarmos o conjunto de sua obra, como ao termos a possibilidade de assistir a qualquer making of de seus filmes. Apesar de ser alguém com muita energia, Clint sabe que não deve exagerar na intensidade ao trabalhar os atores. É conhecido por não gritar “Ação!” no momento de rodar uma cena, mas dizer suavemente algo como “Quando estiver pronto, pode começar”. Isso não exaspera o ator e deixa-o livre para fluir a personagem. Grandes atores já foram comandados por ele e obtiveram grandes performances, sendo que alguns podem ser citados como vencedores de diversos prêmios de interpretação, como Forest Whitaker (em “Bird”), Gene Hackman (em “Os imperdoáveis”), Sean Penn e Tim Robbins (em “Sobre meninos e lobos”), Hilary Swank e Morgan Freeman (por “Menina de ouro”). E este ano que passou quase se tornou o de Angelina Jolie, a qual brinca que apenas aceitará fazer filmes se estes forem dirigidos por Clint.

Assim, trago a indicação deste filme duro, intenso e ao mesmo tempo delicado, o qual nos aponta mais uma história bem contada deste que se torna cada dia mais um dos grandes cineastas norte-americanos. Continuarei a me questionar a respeito de quais palavras devo utilizar para definir Clint Eastwood, mas acredito cada vez mais que é melhor juntá-las todas, sem buscar um rótulo, mas preocupado em demonstrar um pouco do que suas histórias trazem para mim.

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5 comentários sobre “A TROCA – mais uma amostra da sensibilidade de um “machão”

  1. Oi, Hugo…
    Aínda não tive a oportunidade de assistir ” A troca” mas, depois de ler seu texto, quero ver e, é logo….
    Bjss
    Vania

  2. Impossível não querer ver o filme após ler seu texto!!
    Gosto muito do seu jeio de escrever!!
    Muitos beijos,

  3. Hugo, assisti a este filme e sai com esse misto de sensações causadas pela história do filme. Agora parece que acaber de assisti-lo, com seus comentários sobre o trabalho do Eastwood. E já estou ansioso pelo próximo filme do cara.
    Abrs!

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