A redescoberta de Jorge Amado pelos brasileiros

para Jerusa Pires Ferreira

 

A publicação dos livros de Jorge Amado pela Companhia das Letras retoma a oportunidade que temos em apreciar e, para alguns, conhecer a obra deste escritor baiano. Esse foi o meu caso. Há tempos procuro a oportunidade de ler um de seus livros. Tenho em casa alguns dos seus mais famosos – Dona Flor e Gabriela –, mas nunca me senti estimulado o bastante para enfrentá-los. Porém, noutro dia adquiri um de seus livros que mais me atraíam, visto que foi uma das bases para a novela “Porto dos Milagres” (junto a outro livro seu, “A descoberta do Brasil pelos turcos”) que eu tanto apreciara há alguns anos. Trata-se do livro “Mar morto”.

 

Tive uma revelação. A única lembrança que tinha de alguma história de Jorge Amado era “Capitães de Areia”, a qual tive que ler na época do colégio. Naquele período não gostei, e criei certa aversão pelo escritor. Atualmente, principalmente instigado pelas aulas da professora a quem ofereço este texto, voltei a remexer neste universo amadiano. Quando de suas aulas, falou-nos a respeito de “A morte e a morte de Quincas Berro D’Água”, que li e adorei. Assim que terminasse os estudos que realizava naquele tempo, planejava mergulhar nas águas de outro livro dele, sendo o maior concorrente o mencionado “Mar morto” (apesar de que, graças a Jerusa novamente, minha curiosidade por “Tereza Batista cansada de guerra” também era muito grande).

 

O livro inicia com um prefácio em forma de chamamento, o qual já faz o leitor sentir palavra por palavra o intento do escritor e respirar os ares do cais da Bahia de Todos os Santos. Reproduzo abaixo:

 

“Agora eu quero contar as histórias da beira do cais da Bahia. Os velhos marinheiros que remendam velas, os mestres de saveiros, os pretos tatuados, os malandros sabem essas histórias e essas canções. Eu as ouvi nas noites de lua no cais do mercado, nas feiras, nos pequenos portos do Recôncavo, junto aos enormes navios suecos nas pontes de Ilhéus. O povo de Iemanjá tem muito que contar.

Vinde ouvir essas histórias e essas canções. vinde ouvir a história de Guma e de Lívia que é a história da vida e do amor no mar. E se ela não vos parecer bela, a culpa não é dos homens rudes que a narram. É que a ouvistes da boca de um homem da terra, e, dificilmente, um homem da terra entende o coração dos marinheiros. Mesmo quando esse homem ama essas histórias e essas canções e vai às festas de dona Janaína, mesmo assim ele não conhece todos os segredos do mar. Pois o mar é mistério que nem os velhos marinheiros entendem.”

 

Desde o início me questionara a respeito do título “Mar morto”. Conjecturei desenlaces narrativos ou protestos sociais como mote para o nome do livro. Percorri as primeiras linhas querendo entender de onde vinha tal alcunha, mas não consegui descobrir. Na segunda página, não lembrava mais. Estava submerso numa prosa enxuta e dinâmica, moderna ao contar sua história, sem poupar o leitor dos sentimentos, da poesia, das crenças e dos pensamentos. Este primeiro capítulo é repleto de imagens belas, com o vento “a chicotear o rosto de Lívia” e os marinheiros a carregar os corpos dos tombados numa rede de pesca, como numa procissão.

 

Um dos recursos que mais chamaram a atenção é a repetição de termos e frases no intuito de criar rápidos fluxos de consciência e, literalmente, conversar com o leitor sem dirigir-se diretamente a ele. Essas repetições podem causar humor, mas na sua maioria reforçam o caráter trágico dos destinos navegantes, à mercê dos humores de Iemanjá, a mulher de cinco nomes, que por seu capricho pode levá-los ao fundo do mar.

 

A história do mestre de saveiro Guma e sua amada Lívia é contada com todos os revéses da vida praiana, com a morte na espreita e a necessidade de enfrentamento misturada à paixão pelo mar. Neste livro que surgem os versos que depois seriam evidenciados ainda mais na voz e na música de Dorival Caymmi: “É doce morrer no mar”, que cantadas pelo negro Jeremias, acalentavam a dor pela perda de algum dos pescadores. As lendas contadas pelos negros, das histórias dos heróis do cais, perpassam os parágrafos e fazem entender que aquele é um outro mundo à margem, com outros valores, que estão mais próximos da amizade, fidelidade, honra e coragem. A ganância tem sua vez, mas apenas se manifesta quando a necessidade abre-lhe as portas. Outros personagens dão ar da graça, como Rosa Palmeirão, Mestre Manuel, Maria Clara, o velho Francisco, Esmeralda, Rufino e o misterioso Leôncio.

 

Por fim, retomamos a curiosidade do porquê do “Mar morto”, e somos notificados que sua significância é muito maior do que aquilo que imaginávamos. Tudo torna-se mais belo, pois misturam-se os sentimentos e as sensações ao arremate de uma trama que para nós acaba naquele ponto final da folha de papel, mas para os personagens se perpetuará.

 

No final do livro, há uma citação de Zélia Gattai, que diz que “Mar morto” foi seu abre-alas, pois logo que o terminou foi atrás dos outros livros do autor, o qual ainda nem conhecia pessoalmente. Façamos isso também. Agora que sua obra completa é republicada por uma nova editora, em edições renovadas e com preços acessíveis, podemos estimular principalmente aqueles que não estão acostumados às histórias do mar a colocar os preconceitos de lado e descobrir quem realmente foi Jorge Amado.

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2 comentários em “A redescoberta de Jorge Amado pelos brasileiros

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  1. O colégio faz as pessoa não gostarem de ler, meu gosto pela leitura com certeza não nasceu lá, era estranho ser a única a ter gostado de Macunaíma e o Sargento de Milícias rs Jorge Amado confesso que nunca li, mas agora deu uma vontadezinha…

  2. Realmente, as aulas da Jerusa nos instigam a ler Jorge Amado. Aliás, gosto de Jerusa por isso, por não dividir literatura em alta e baixa (tão raro nos discursos acadêmicos) e não acreditar em Academia.

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