“Ensaio sobre a cegueira” enfim estréia nos cinemas

“O sinal verde acendeu-se enfim, bruscamente os carros arrancaram, mas logo se notou que não tinham arrancado todos por igual. O primeiro da fila do meio está parado, deve haver ali um problema mecânico qualquer, o acelerador solto, a alavanca da caixa de velocidades que se encravou, ou uma avaria do sistema hidráulico, blocagem dos travões […] o homem que está lá dentro vira a cabeça para eles, a um lado, a outro, vê-se que grita qualquer coisa, pelos movimentos da boca percebe-se que repete uma palavra, uma não, duas, assim é realmente, consoante se vai ficar a saber quando alguém, enfim, conseguir abrir uma porta, Estou cego.”

 

Esta parte do início do “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago, já dá o tom do que está por acontecer no livro. Estilo inconfundível, numa prosa poética incessante, com a pulsação tensa de um drama sem explicação. Propositadamente, claro.

 

O filme vai pela mesma toada, gradualmente espalhando a cegueira branca pela cidade. Junto a ela, a fotografia também é afetada, expondo imagens muito claras, brancas, em alguns trechos lembrando o “THX 1138”, de George Lucas (o espectador deve se perguntar por quê as legendas do filme são amarelas, e não brancas como costuma ser nos cinemas – a explicação está exatamente nesta condição da imagem do filme). Mas não se engane, pois nada de futurista há para ser vislumbrado. O que vemos é um retrato da própria condição do ser humano, um animal que quando perde o sentido de civilização é apenas outro animal.

 

Li muitas reportagens a respeito do filme antes de seu lançamento. E fiquei a aguardar uma obra extremamente pesada, dura e selvagem. O retrato feito pelo conteúdo realmente é cruel, porém não achei tão difícil como alguns pintaram. É um tema quase apocalíptico. Porém, suas características me fizeram lembrar um dos filmes mais intragáveis que vi em minha vida. Um filme de qualidade, porém tão cruel e soturno que nos faz passar mal. Nem sequer entrou em circuito comercial no Brasil. Apenas tivemos a oportunidade de assistir na Mostra Internacional de Cinema de 2004. O filme chama-se “Tempo de Lobos”, do diretor austríaco Michael Haneke, notabilizado por obras mais conhecidas como “Violência gratuita”, “Código desconhecido” e “A professora de piano”. Trata de uma sociedade que entrou em colapso, após água e comida ficarem escassos.

 

Fernando Meirelles é um diretor de qualidade e que ainda tem muito o que oferecer. Pensem que este é apenas o quinto longa-metragem de sua vida. Apesar da grande experiência como diretor publicitário, ainda é um novato na carreira cinematográfica. Teve muita coragem para realizar o “Ensaio” da forma como realizou. Optou em ser muito fiel à obra literária e tomar apenas algumas “liberdades poéticas”. Tem uma preocupação especial com o preparo dos atores, pois gosta de trabalhar improvisos durantes as filmagens, algo que apenas funciona quando o personagem já está “encravado na alma do ator”. Todo mundo fala do trabalho de atores amadores do “Cidade de Deus”, mas ainda acho que Fernando atinge o melhor grau de direção de atores em “O jardineiro fiel”. No “Ensaio”, realizou um trabalho titânico, com aquela quantidade de pessoas a interpretar recém-cegos, com um cuidado especial para não ficar estereotipado.

 

É um filme que sinto-me feliz em recomendar. Mas dois cuidados devem ser tomados. O primeiro é não ir esperando um blockbuster americano. É um filme denso, que deve ser contemplado como tal. O segundo cuidado é evitar agir que nem os chatos que estavam ao meu lado no cinema, que mais preocupavam-se em identificar as locações do filme (“Olha o viaduto do Chá”, “Olha o Minhocão” e etc) do que entender a trama.

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6 comentários sobre ““Ensaio sobre a cegueira” enfim estréia nos cinemas

  1. Caro amigo,
    endosso suas palavras, todos nós sabemos e, em especial para os que leram o livro, como nós, o quanto seria desafiador para esse homem chamado Fernando Meirelles realizar este filme, um cineasta que está realmente começando sua carreira agora, mesmo tendo 4 longas no histórico. Acho sim que as pessoas devam assistir ao filme e, reflitam sobre as nuances e os fatos ocorridos do bicho chamado homem, onde Saramargo expõe e Fernando Meirelles mostra. Destaco a coragem deste brasileiro, acostumado a desafios e, mais uma vez, em por a cara para bater ao realizar o filme.
    Com um trabalho de direção forte e consistente, talvez com uma narrativa difícil, porém audaciosa.
    abçs

  2. Faaala Hugo!
    Tive uma experiência inédia ao assistir este filme, e que foi muito boa: acabei de ler o livro e, logo em seguida, fui ao cinema. Portanto, é possível afirmar seguramente que Meireles foi mesmo fiel à obra e soube se sair muito bem em cenas em que, enquanto eu lia o livro, me perguntava como o diretor iria se virar para passar para a telona.
    Diante das críticas que vieram na época do Festival de Cannes (e muitos comentários baseados em críticas, e não no próprio filme), constatei que o brasileiro tem mesmo muito pé atrás com as produções feitas aqui, ou com mão de brasileiro. Cheguei a ler coisas do tipo “o cinema nacional tem muito o que aprender”, sendo que o filme é co-produção e nem “nacional” dá para ser considerado.
    Enfim… Geralmente ficamos frustrados ao ver um filme beseado em obra literária. Não posso dizer o mesmo sobre este.
    Abraços!

  3. Quero muito ver o filme. Eu me lembro de quando conversávamos sobre o filme há um ano, e também sobre o blog do filme.
    Gostei do final do seu texto, Hugo. Sempre existem os malas de plantão, um saco! Esses ainda são de papelão, na chuva…

  4. Hugo,

    Além de parabenizá-lo pelo ótimo texto, que nos instiga, de fato, a assistir ao filme o quanto antes, queria elogiá-lo também pela sobriedade das suas considerações. Embora não tenha lido o livro, há muito tempo venho acompanhando, através da imprensa, críticas e especulações sobre o trabalho do diretor Fernando Meirelles em relação a esta obra. A esmagadora maioria delas vinha carregada de um certo ranço, de um certo viés de paixão que não condiz com o ofício da análise cinematográfica. Não foram poucas as vezes em que senti, nessas críticas, uma resistência exageradamente grande à idéia de adaptar o livro de Saramago, com um quê de avidez no sentido de depreciar os esforços do diretor. Como disse o Fred, o brasileiro tem mesmo muito pé atrás com as produções que envolvem brasileiros, o que talvez explique, em parte, a nossa dificuldade em forjar uma identidade ao cinema nacional (ainda que essa identidade se fundamente na saudável diversidade que nossa cultura propicia).
    Abraços!

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