Impressões a respeito do “Hamlet” com Wagner Moura

Há peças de teatro que dão margem a diversas interpretações. Na realidade, qualquer peça dá margem a diversas interpretações. Mas há peças que ao longo dos anos (e dos séculos) inspiraram montagens das mais variadas, desde formatos clássicos, até modernos e hi-techs. Porém, quando se realiza a montagem de uma peça clássica e procura-se inová-la, adaptá-la ou transgredí-la, corre-se o risco de errar na mão. Corre-se o risco de não ser fiel ao texto original e deturpá-lo por completo.

A montagem do clássico “Hamlet”, realizada por Aderbal Freire-Filho, protagonizada por Wagner Moura, fica a um passo desta deturpação. Não critico a questão de haver um cenário único, com poucos atores que interpretavam várias papéis. A questão não é o minimalismo, e nem mesmo a utilização de tecnologia na linguagem visual. O vídeo que é projetado no fundo do palco, transmitido da câmera que filma os atores em tempo real, tem momentos sublimes. As imagens comentam a ação e complementam o drama de uma forma mais dinâmica do que numa encenação clássica. Porém, o grande problema seria a leitura que é feita da peça.

Vemos uma leitura mais cômica do “Hamlet”, com um excesso de humor em cenas que têm valor dramático. O personagem de Polônio transformado num homem afetado, com tiques e ironias repletas de improvisações, que podem ser engraçadas, porém tiram o foco do drama a favor deste alívio cômico. Além disso, atores secundários que não atingem a qualidade necessária para acompanhar o ritmo imprimido pelo protagonista (com exceção de Tonico Pereira e Carla Ribas – muito boa, por sinal).

Os pontos altos da peça são a morte de Ofélia e os monólogos de Wagner Moura. No primeiro caso, Aderbal utiliza o vídeo para registrar a imagem de Ofélia coberta por um véu que, devido desenho de seu rosto por baixo do tecido e à imagem em preto e branco, parece uma caveira que se desfaz. Os monólogos do ator principal são inspirados e bem declamados, neste texto complexo e difícil, que faz sentido sob sua voz. O monólogo do Ato 03, Cena 01, famoso pelo “Ser ou não ser…”, é lindo.

Como muitos sabem, a personagem de Hamlet, após saber que seu pai, o rei da Dinamarca, foi assassinado pelo irmão, que acabou casando com sua cúmplice, a rainha-viúva, faz-se de louco a fim de tramar sua vingança. Porém, o enredo transcorre de tal forma que há uma certa dúvida se se faz de louco ou realmente ficou. Isso é claro no personagem de Wagner Moura, porém ele passa um pouco o ponto ao querer marcar os momentos irônicos e de pretensa “loucura fingida” com uma voz extremamente anasalada, que beira o cômico. Sabemos que a ironia do texto abre espaço para algumas falas de Hamlet inspirarem humor, porém a medida é muito sutil. O excesso traz um risco que talvez eles tenham querido correr. Mas me repito ao dizer que ao correr o risco, pode-se errar. O fato deles correrem riscos não obriga ninguém a ser indulgente.

Os figurinos são modernos, com tênis, casacos de couro e calça jeans, o que não atrapalha em nada. Está dentro da proposta deles e fica melhor do que se tivessem optado por figurinos do século XVI. A contraregragem é feita pelos próprios atores, o que ambienta a encenação de forma agradável.

A peça deveria ter outro nome, algo que indicasse que não se tratava de uma montagem fiel ao texto. Claro, é fiel no encadeamento da maior parte das cenas, porém não é em sua estrutura, muito menos em sua mise-en-scene. Acabou que as pessoas ficam mais preocupadas em ver o Wagner Moura do que perceber a história e o drama. Enfim, é o gosto de cada um.

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Um comentário em “Impressões a respeito do “Hamlet” com Wagner Moura

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  1. Não sei se gosto muito dessas interpretações dos textos de Shakespeare, acho que a história e mesmo a mensagem acaba se perdendo, mas…só assistindo para tirar minhas conclusões…

    Bjos

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