A “pane seca” do motorista-cidadão

É assustador ver a reação de parte da sociedade à publicação da chamada “Lei Seca”. A polêmica está instaurada desde antes dela ser colocada em vigor, e está longe de acabar. A última que vi foi a entrada da Associação Brasileira dos Bares e Restaurantes ter entrado com uma representação no STF para questionar a lei. Claro! Eles têm este direito. Enfim, vão perder muito dinheiro. O que me chamou atenção é que um dos argumentos deles é o fato das pessoas terem de fazer o teste do bafômetro. Peraí! Esta associação está preocupada com a violação do direito do cidadão? Que bacana…

Ouvi diversos comentários nas duas últimas semanas a respeito dos problemas que as pessoas estão sofrendo porque não podem mais beber nas suas baladinhas. “Como vou sair com uma mulher sem poder nem pedir um vinhozinho?”, “Pôxa, o táxi é muito caro!”, “Como fica o romantismo se eu não poder levar a menininha de carro para casa?”. Acho que nestes momentos vale uma conversa sincera e a apresentação das opções: 1) Tomar uns golezinhos de chopp, vinho ou etc. e voltar de táxi ou 2) Ir de carro, mas ficar no suquinho ou até na cerveja sem álcool. Enfim, o que importa é chegar vivo em casa para depois aproveitar a relação.

Outra argumentação que escutei foi o fato de acharem um absurdo ser proibida qualquer dosagem alcoólica. Na minha opinião, o motorista deve ser responsável, sem deixar-se à mercê de uma suposta resistência que ele acredita ter à bebida. São muitos destes que acabam mortos em acidentes ou aleijados para a vida toda. Não pense que isso é melodramaturgia. É a pura verdade. Existe aquela frasezinha que já faz parte da infeliz sabedoria popular: “Nunca acontecerá comigo”, “Isso só acontece na casa do vizinho” e por aí vai.

O governo fez aquilo que deveria. Protegeu o cidadão. E protegeu o cidadão dele mesmo. Por mais que agora tenhamos que passar por dias de adaptação, será muito bom para a sociedade. Hoje mesmo foi exibida uma reportagem no Jornal Nacional a respeito da queda de acidentes e atendimento nas emergências de hospitais. Mudanças significativas, as quais não aprofundarei aqui (vá procurar!).

Quando eu era adolescente cheguei a dirigir com algumas doses a mais de álcool. Acho que todos nós já fizemos isso. Depois, percebemos a besteira que foi feita. Sorte que eu percebi isso logo e nunca mais bebi quando estou dirigindo. Espero que os cidadãos passem a fazer isso também, como muitas já fazem.

Gostei do fato de que prenderão quem estiver acima de uma determinada dosagem. Mesmo que não haja acidente. Só espero que tenha vaga na cadeia e que as fianças não sejam tão baixas quanto a que vi noutro dia um pinguço pagar – R$ 400,00. Quanto ao bafômetro, acho uma discussão estúpida. Qual o problema de assoprar a maquininha? Assopre e prove que não ingeriu álcool. Vá embora em seguida, com tranqüilidade. Eu, sinceramente, não acharia que meus direitos foram violados por eu ter que mostrar que estou cumprindo a lei. Também sou obrigado a dar para o governo parte do dinheiro que ganho ao trabalhar, mas faço isso. Faz parte da vida em sociedade. Posso até não gostar, achar ruim, mas precisamos olhar um pouquinho mais para a frente, tirar os olhos apenas de nosso umbigo, e pensar que fazemos parte de um grande contexto onde nem sempre as autoridades sabem quem age certo e quem age errado.

Também não me venham com a história de que se você usar o Listerine será pego no teste do bafômetro. Ou você passa a usar o Listerine antes de dormir (onde você só vai dirigir nos sonhos), ou troca por um anti-séptico bucal que não tenha álcool.

É bom tomar uma cervejinha. É uma delícia tomar um vinho branco com um peixinho na brasa num ambiente com música ao vivo. Até uma pinga é gostosa na situação propícia. Ir a uma festa e não beber pode parecer estranho. Mas sempre tem alguém na turma que não gosta de beber ou que se prontificará a ficar no guaranazinho. Utilize a lei para criar um novo hábito e para reavaliar seu comportamento. Quem lembra da polêmica quando tornaram obrigatório o uso do cinto de segurança? Quantas pessoas disseram que não se habituariam e hoje nem sequer conseguimos sentar no carro sem puxar a fivela.

Os lobbies vão tentar de tudo para invalidar esta lei. Pois no Brasil tem esta outra máxima da “lei que pega e a lei que não pega”. Mas esta terá que pegar e espero que o governo não afrouxe. A lei não é feita para agradar as pessoas e sim para melhorar a sociedade. Pode parecer meio ingênuo, mas em sua essência, é isso mesmo. Fico imaginando como teriam sido as propagandas na televisão se tivessem decidido fazer um referendo sobre a polêmica. O lobby das armas conseguiu convencer a população de que é bom ter arma em casa para se proteger (é um “direito” seu). Hoje mesmo saíram notícias de crianças que mataram outras com tiros acidentais por armas que não estavam acidentalmente em casa. Bem, as empresas interessadas na continuidade da bebida para qualquer cidadão e a qualquer hora têm bastante dinheiro para fazer as campanhas. Ou você acha que, se não fosse obrigatório, elas escreveriam após as propagandas aquele famoso “Aprecie com moderação”? Elas escreveriam “Beba até cair, e não esqueça de pagar a conta”.

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2 comentários sobre “A “pane seca” do motorista-cidadão

  1. faaaaaaala, master Hugo.

    Apesar de seus argumentos serem pertinentes e nobres, uma vez que prezam pela integridade fisica e mental dos cidadãos, tenho que discordar do que defendes. Acredito que, até o momento, a Lei Seca tem conseguido diminuir os destastres em ruas avenidas, lares vidas e colunas vertebrais, mas também acredito que se o Estado fiscalizasse rigorosamente e punisse com regularidade e sem exceções aqueles que trangsgredissem os limites da lei anterior, ganhos semelhantes ou até mais expresivos poderiam ter sido alcançados. Também tenho bebido menos e evitado combinar álcool com direção, mas sequer um copo de cerveja? e as punições? o cidadão toma três copos de cerveja, é preso e responderá a inquétrito criminal. Acho a atitude do governo válida e pertinente e algo sobre a questão dos acidentes de trânsito precisava mesmo ser feito, mas não da maneira intolerante e arbitrária como vem sendo conduzida.

    um abraço, meu amigo e parabéns pelo texto (bem leve e sóbrio)

    Pedrão

  2. Fala Huguinho,

    Muito bom seu texto, e concordo com ele. Infelizmente o brasileiro é um povo extremamente mal educado, que não respeita ninguém (muito menos as leis) e só acata alguma situação quando a punição é severa. Quando a questão é polêmica sempre fica aquela sensação de “dar um jeitinho” do brasileiro, tentando burlar a lei de alguma maneira, tanto que até foi comentado que essa lei aumentaria a corrupção, pois ao invés de pagar a multa, o $$$ seria oferecido ao policial que o parou! Lamentável isso.

    Eu sou um dos amigos, de acordo com o seu texto, que fica no “suquinho” quando vou a alguma festa. Não me incomodo em ficar sem beber, já que bebo muito pouco mesmo. E já me prontifico a levar pra casa aqueles que gostam de exagerar na dose, tanto que alguns colegas que já sabem disso falam comigo no começo das baladas, e eu digo que tenho apenas 2 restrições:
    – Não carrego ninguém que ficar bêbado no chão;
    – Aquele que vomitar no meu carro nunca mais terá o privilégio da carona.

    Foram inúmeras as vezes que amigos voltaram comigo porque beberam demais. Sei que pelo menos eles tem consciência do risco de voltar dirigindo pra casa, e preferem não arriscar. Acho bacana isso. E acho que essa lei “vai pegar”, independente de todas as reclamações que elas estão causando.

    Para aqueles que acharam a medida radical demais, pensem no seguinte: Um bom exemplo de “medida radical” é a cidade de Londres, onde existe um “toque de recolher” as 22h, em que todos os bares param de vender bebidas alcoólicas e fecham. E todo mundo sabe que inglês BEBE MUITO, é cultural. Aparentemente estão todos acostumados a isso e ninguém reclama. Em breve isso vai acontecer aqui com a “lei seca”, e quem quiser beber algo a mais, que faça em casa… rs.

    Vamos aguardar os resultados dessa lei, e que a fiscalização não “amoleça” depois de um certo tempo.

    Abraços,

    Adriano.

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