Cheiro de Chaplin

Blogueiro Convidado: Fred Linardi
Contato: derferik@yahoo.com.br e http://narravidas.wordpress.com/

Não sei como o mundo dos palhaços invadiu meus interesses, minha busca por produções do estilo e, aos poucos, a minha vida – prevejo. No entanto, posso dizer que meu gosto por este mundo clownesco vem de longa data, quando eu ainda nem podia perceber. Claro que cansei de ir a circos quando criança e assisti a inúmeras vezes palhaços que se apresentavam na televisão. Mas não conseguia associar, por exemplo, a figura de Charles Chaplin com a de um palhaço. Ao menos não como a de um palhaço de circo, que faz apenas as palhaçadas pastelonas, ficam ensopados com baldes d´água e melecados com torta na cara.

 

O fato é que, com o tempo, passei a valorizar a figura do clown e, nem se eu quisesse, não poderia deixar de eleger o próprio Carlito como figura exemplar da arte. O drama levado ao cotidiano e aos prazeres e desprazeres da vida o fez complementar ricamente o universo de um palhaço errante que sente, que ama e sofre. Ao assistir pela primeira vez aos seus filmes, quando a TV ainda se preocupava em passá-los mesmo que tarde da noite, minha fascinação já foi fisgada. Viajava com meus pensamentos de como seria assisti-los ainda na época em que eles foram lançados no cinema, com aquela confusão na platéia tão bem retratada em filmes como Cinema Paradiso e o próprio filme Chaplin, estrelado em 1993 por Robert Downey Jr.. Seria uma eterna frustração para mim. Até esta semana.

 

Ontem, abruptamente, esta sensação foi vivida em cada fio de cabelo e em cada um dos pêlos arrepiados ao assistir ao espetáculo L´Oratório D´Aurelia. Mesmo fugindo da proposta e contexto que Chaplin criava em seus filmes, foi possível presenciar o mais fino humor, a essência da pantomima circense transportada ao teatro, no palco do Sesc Vila Mariana. Por ficar sabendo do espetáculo na última hora, foi do mezanino que vi as encenações e movimentações do casal protagonista da peça interagindo entre si e entre elementos imaginários e surrealistas. Aurélia começa atuando de dentro das gavetas de uma cômoda, puxando panos vermelhos e pretos que futuramente se emendam com a cortina do palco, balançando suas estruturas e levando a protagonista consigo às alturas, se enveredando nas acrobacias e voltando ao solo para dar seqüência a um espetáculo de duas horas, repleto de ilusionismos e graça. A inventividade é o tom de uma apresentação em que Aurélia contracena quase o tempo todo com um homem sem nome, encenado pelo dançarino norte-americano Timothy Harling, capaz de surpreender pela expressão corporal e envolver a platéia em risos e palmas.

 

Ontem pude finalmente me sentir no ambiente mais clownesco que jamais estive, depois de já tê-lo conferido em outros como o Cirque du Soleil o ou Slava Snow Show. No Oratório pude sentir a magia de Chaplin mais perto, não só pelo fato de Aurélia Thierrée Chaplin ser a neta do gênio e ter nascido em família que cultiva esta arte de forma primorosa (sua mãe, Victoria Chaplin, é a diretora do espetáculo). L´Oratorio d´Aurelia é a própria ousadia da arte, feita por artistas que acreditam nela o suficiente para sempre inovar, trazendo ao público as situações corriqueiras e resgatando a mais singular tradição.

 

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5 comentários sobre “Cheiro de Chaplin

  1. Fred, obrigado pelo texto.
    Mas, na verdade, pouco me surpreendeu ;-).
    O texto é excelente, como sempre… Vejo sua adoração por clowns, palhaços, circos e performances, como faz parte de sua interessante persona. Seu capricho também não é novidade…
    Para mim, a novidade é a chance de conhecer estes espetáculos que não têm grande apelo na mídia, mas são fenomenais. Você consegue “cavocá-los” e sempre traz como ótima oportunidade.
    Grande abraço, e aguardo por outros textos!
    Hugo

  2. Estimado Fred: “PÊLOS SENSÍVEIS” e PELOS DE SENSIBILIDADE

    Vejo que continuas uma pessoa sensível: pelo texto bem colocado e pelos fios de cabelos arrepiados; ou, simplesmente: “pelos pêlos”…
    É admirável a tua facilidade em cronicar e, por consequência, transformar em palavras o que visualizas.
    A descoberta de Chaplin é sempre instigante. A propósito: lembro que minha antiga mania de colecionar filmes em VHS começou gravando os de Chaplin que passavam pela madrugada na TV. Os finais, não raro melancólicos, nos levam a refletir, principalmente, quando na pele daquela figura patética do vagabundo.
    Voltando ao texto, sabes que sou leitor exigente. Mas não tenho motivos para desagrados do que tens passado para o papel. Pelo contrário, observo concatenação de idéias, com períodos curtos, bem situados, excelente. Aliás, esses elogios têm sido uma constante ao desenvolvimento da tua sensível atividade intelectual.
    Aprecio leituras assim! Parabéns!
    Um abraço fraternal!
    Flávio Oliveira

  3. Belíssimo texto como sempre!!
    Adorei ter lido esse texto após ter visto esse inesquecível espetáculo. Não pare de escrever por favor!
    Te amo!
    Bjs,
    Rezinha

  4. Hugo meu amigo.
    Ao ler o texto fiquei com uma vontade irresistível de assistir ao espetáculo. Embora eu não goste de palhaços, ou na melhor expressão, os de cara pintada, calças folgadas e cabelos coloridos, desde pequeno, eu adoro Chaplin. Os detalhes que colocou no texto me fizeram imaginar como foi o espetáculo. A única forma de conferir é ir lá mesmo.
    Nice post!

    Denis.

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