O que aconteceu com a educação?

Não, este texto não é sobre as péssimas condições do sistema de ensino brasileiro. Se fosse sobre isso, no título eu teria colocado a palavra “educação” com um “E” maiúsculo. Enfim, este texto também não é sobre normas de escrita. A educação à qual faço referência nasceu muito depois do ensino, próximo à ilustração do Iluminismo, e tem seu significado mais próximo à “etiqueta” que, pelo menos na língua portuguesa, é sua parente próxima dentro do dicionário na seção dos vocábulos que respondem pela quinta letra do alfabeto, segunda vogal.

Trabalho numa empresa que conta com bem mais de 100 pessoas. Estão distribuídas em turnos e em três casas separadas. Nem por isso não nos conhecemos. Há eventos que nos reúnem além das relações profissionais diárias. Todo mês há um evento para celebrar aqueles que fizeram aniversário. Um departamento organiza a festa, traz as comidinhas e bebidas, enfeita com alguns balões e fitas, bota umas plaquinhas nas paredes com o nome de quem receberá o parabéns. Acendem velinha, assopram e cantam parabéns. Tudo tão bonitinho.

O problema é quando acabam de cantar o parabéns. É como se fosse o estouro da boiada. No ambiente apertado onde fazem a festa, concentram-se todos os funcionários, os quais querem de qualquer jeito chegar na comida. São homens e mulheres, de todas as idades e cargos. Se empurram como se estivessem na fila de um jogo de futebol, loucos para chegarem ao objetivo: salgadinhos e docinhos. E não pega uma coxinha e um brigadeiro, ou um copo de guaraná e uma bala de coco. Pega dois copos de guaraná, enche de salgados e doces e equilibra numa mão. Na outra, faz um sanduíche de pratinhos de papel, sendo que o recheia são pelo menos dois pedaços de bolo.

Você deve pensar: não seja tão chato! Estavam levando para outras pessoas. Negativo. As próprias senhoras gordinhas (estou sendo educado, né…) comiam cada uma o próprio piquenique que tinha arrendado, sem dividir com ninguém. Eu nem consegui chegar à mesa de comidas. Peguei duas bolinhas de queijo porque uma colega que estava mais perto esticou o braço, com pena de mim. Afastei-me da mesa e apenas observei o tumulto. O pessoal comia e voltava para a fila para pegar mais e mais. Um bando de esfomeados. E nem posso dizer que são pessoas que tenham problemas para comer no dia-a-dia, pois são assalariados e muito saudáveis (lembre que falei das ‘gordinhas’). Essas mesmas mulheres que saem carregando os salgadinhos e dando cotoveladas para passar em meio à massa são mães e devem educar seus filhos para fazer o mesmo, né.

Será que não é possível chegar ao local, pegar uma dose pequena dos salgados que estão lá para todos e sair? Nem pensaram que tinha um monte de pessoas para comer, que todas devem participar de uma forma saudável.

Neste mesmo local, acontecem outras coisas comuns do cotidiano, sobre as quais já estamos acostumados então nem ligamos. Porém, já que eu já estava incomodado com a falta de educação dos outros, reclamei. Estava decidindo algo junto ao meu gerente quando fomos interrompidos por uma outra colega.

– Chefe. Vamos embora! Você não vai? Você não vai?

– Estou conversando com ele. Pode esperar?, falei indignado.

– E eu estou falando com você? Fique quieto! Estou falando com ele!

– Mas eu estou conversando com ele. Espere!

– Não estou falando com você! Não enche! (se vira para o gerente). Então, você não vai com a gente? Estão nos esperando.

Pensei comigo. Nossa, que mulher mal educada. Mas deixei quieto, ficou como se ela tivesse ‘ganho a discussão’ e fui embora, pois isso foi no final do expediente. Fiquei pensando sobre o assunto e relembrei a quantidade de vezes que essa colega (que por sinal é uma profissional competente) faz esse tipo de coisa. Interrompe os outros na hora que estão conversando, achando sempre que os seus problemas são os mais importantes. Mas ela é apenas um exemplo. Muitas pessoas são assim. Não basta ser apenas um bom profissional, as relações no trabalho são muito mais que isso. Eu mesmo devo ter meus momentos de falta de educação. Enfim, vocês que apontem, não eu…

Não vou dar mais tantos exemplos de falta de educação, apenas terminar com um que já se tornou folclórico. O que você acha da festa de comemoração de aniversário da cidade de São Paulo? Todo ano a mídia enaltece o bolo de quatrocentos ‘e lá vai pedrada’ metros que desaparece em cinco segundos. CINCO SEGUNDOS MESMO! O povo vai com sacos plásticos, pirex, tupperware, e até bacia. Quando dão o start, a pessoa arremessa o recipiente em cima do bolo e literalmente arranca o pedaço daquele latifúndio para dividir com seus familiares. Além de ser nojento para quem vai comer, todo mundo fica imundo. Tenho certeza que teríamos uma forma melhorzinha de comemorar o aniversário desta cidadezinha pequenininha que vivemos.

Acho que a educação foi substituída pelo egoísmo. Ser educado é pensar no próximo. Ser educado é viver em sociedade. Ser educado é saber que o outro é tão importante quanto você. Que os seus problemas, sim, são muito relevantes para ti, mas os dos outros também são relevantes para eles. Se há necessidade, pedimos a vez. Pedimos a vez. Não exigimos. Se há necessidade, conversamos com o outro a fim de tentar resolver. Abro o dicionário e encontro alguns sinônimos: civilidade, delicadeza, polidez, cortesia.

Bom, tem um bando de idiotas por aí que diz que o mundo é dos espertos. Pois é. Talvez seja mesmo. Enfim, veja como o mundo está.

Anúncios

3 comentários em “O que aconteceu com a educação?

Adicione o seu

  1. Hugo,
    A “educação”, na acepção que você menciona no seu texto, freqüentemente se refere à palavra proferida, haja vista o exemplo da sua colega de trabalho. Gosto sempre de lembrar aquele ditado inglês que traduzi:
    “Palavras faladas
    São como flechas disparadas.
    Não podem ser trazidas de volta,
    Uma vez lançadas.”

  2. concordo com você que a educação tem mais relação com o coletividade… e ainda que este coletivo se faz constiuído de cada um de nós, da individualidade… que por sua vez é constituída da formação do caráter…muito mais do caráter em si do que uma formação profissional, cultural ou de boas maneiras… uma individualidade que se projeta na coletividade…seria uma utopia?

  3. eu vejo essa educação todos os dias no metrô e no ônibus…de todo o tipo…é triste de ver…o que podemos fazer é usar toda a educação que nossos pais nos deram e agradecer por não ser igual a eles rs

    Bjoooooo

    cade você no meu blog? rs

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: