Vale a pena uma "Conduta de risco"

Eu não pretendia escrever sobre esse filme. Na realidade, minha intenção neste final de semana era escrever sobre “O gângster”, de Ridley Scott. Achei o filme bom, com um Denzel Washington soberbo ofuscando o clichê de Russell Crowe. Mas não me animei. Pensei que ficarei sem escrever nada e que, na hora que surgisse a vontade e o assunto, escreveria qualquer coisa.

Hoje fui numa reunião e, já que voltava dela num bom horário, decidi arriscar um dos filmes indicados para o Oscar. Quando era mais novo, tinha o hábito de ir assistir, pelo menos, os cinco indicados para melhor filme. Nos anos passados, devido a diversos problemas, não fiz isso. Esse ano pretendo fazê-lo. Somente por isso que fui assistir a “Conduta de risco”. Não queria ver um George Clooney sempre igual, com aquela cara de Batman velho ou de médico de emergência. A cara de bom moço e a excelente dicção há muito me enjoaram (o contrário de quando ele está como diretor, mas este é assunto para outro texto). O diretor do filme também é um desconhecido: Tony Gilroy. Sei que é seu primeiro filme como diretor, mas dei uma olhada no Google e vi que é um roteirista experiente. Entre eles, dois filmes que gosto muito: “Eclipse total” e, principalmente, “Advogado do diabo”.

Fui sentindo-me um intruso, pois não queria estar lá. Sentia que a platéia somente sentava naquelas poltronas por causa das indicações do Oscar. Certíssimo: eu também estava lá por causa disso!

O filme abre com um depoimento em off introduzindo o escritório de advocacia. A montagem é suave e o depoimento é perturbante. Aos poucos emergimos na história que, de início, é difícil de entender. O galãzão é Michael Clayton (que, por sinal, é o título do filme), um advogado que possui um cargo diferenciado no escritório: solucionar problemas. Quais problemas? Qualquer um. Eis que surge um problema enorme e ele se envolve, tem um amigo relacionado, e blá blá blá. O enredo não é o que importa. O que me atraiu no filme foi o tratamento dado à história. Por ter um monte de advogados envolvidos, me lembrou os filmes baseados em John Grisham. Mas é melhor. Consegue ser bem menos “rocambolesco” do que “A firma” (o melhor deles), mais profundo que “O cliente” e “Dossiê Pelicano” (que é um lixo) e mais atraente do que “O júri” (porque este… nem vi).

A fotografia do filme é escura, sem exagerar nas sombras e contrastes, mas a montagem é perfeita. É uma montagem sóbria, que cria suspense quando tem que criar, surpreende nos momentos certos e, ao mesmo tempo, não necessita de subterfúgios complexos para alinhar a narrativa. Trabalha o filme todo num flashback curto, de quatro dias. Geralmente, quando se utiliza deste artifício, os cineastas costumam fazer longos flashbacks de meses e semanas. Nisso, a história fica muito fragmentária, cheia de elipses, para que no curto espaço de duas horas de projeção tudo seja contado. Talvez seja isso que tenha me incomodado em “O gângster” – em duas horas e meia querer contar mais de uma década de história.

Tony Gilroy se concentra nestes quatro dias anteriores e nos subseqüentes e consegue extrair densidade de uma história que, num primeiro momento, pareceria banal. Enfim, achei tudo muito bem ajustado, correto, sem exibicionismo ou qualquer tentativa de supervalorização. Em sua simplicidade, “Conduta de risco” satisfaz, entretem e conta a história que se propôs a contar.

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