Sobre um filme do qual não sei bem o que pensar

Um livro arrebatador… Uma história complexa e dramática, com personagens marcantes. Uma personagem, em especial, com o tempo poderá se tornar emblemática na literatura inglesa – Briony Tallis. Quando o livro “Reparação” esteve às minhas mãos, tive a certeza que folheava páginas de um futuro clássico. Ao mesmo tempo, considerava que daquela história poderia sair facilmente um filme. Enfim, sempre que leio algo não consigo evitar: penso nas imagens, como seria a montagem, quem seriam os atores… Qual o rosto que gostaria de dar para eles…

Quando vi que o livro de Ian McEwan tinha sido adaptado, fiquei na expectativa… Se não me engano, exibiram o filme pela primeira vez em Cannes. Eu nem sabia se viria para cá. Não sabia se era daqueles filmes apenas do circuito de arte. Desses, alguns vêm para o Brasil, e outros ficam no limbo, no meio do caminho, ou nem isso… no início do caminho… distribuição restrita. Mas esse não! Acabou que me surpreendi com as várias indicações que ele recebeu para o Globo de Ouro deste ano e o salto dele na mídia. Não houve festa, não houve comemoração, mas ganhou o prêmio de melhor filme de Drama do ano (essa Associação dos Críticos Estrangeiros premia separado – Drama de um lado, Musicais ou Comédias do outro). Dizem que o filme vai arrasar no Oscar… mas eu tenho as minhas dúvidas…

Acho uma covardia querer comparar um filme com o livro do qual ele é adaptado. Vou tentar não fazer isso, pois como já pode ver, sou um fã do livro. Tentei me desvincular do livro quando assisti e as críticas que tenho a respeito são meramente quanto à obra cinematográfica. Não dá para querer que um filme seja exatamente como o livro, pois é uma concorrência desleal comparar uma obra audiovisual com uma obra multisensorial- que é aquela que nasce em nossas mentes, em nossa imaginação. O roteiro do experiente Christopher Hampton é de arrasar. Ele consegue transportar a essencialidade do livro para a tela. Perde detalhes, alguns importantes, mas mantém o que é relevante. Faz as escolhas certas. Somente sentimos a falta destes detalhes que mencionei quando a revelação final aparece. Neste instante, parece que é tudo muito súbito. Perdemos um pouco daquela sensação de graduação, de acontecimentos e pensamentos que se sucedem de forma lógica. Mas, para isso, o ritmo do filme teria que ser quebrado. Bem, esta era uma barreira, um desafio, que o diretor Joe Wright tinha que enfrentar.

Porém, um filme que tinha tudo para ser belíssimo, se perde ao supervalorizar a destreza técnica. Ninguém quer que um filme seja mal feito, mas o exagero na plasticidade atrapalha em alguns momentos. Tem algo que me incomoda em alguns filmes brasileiros contemporâneos. O excesso de beleza na fotografia. São aqueles céus maravilhosos, vermelhos ao pôr-do-Sol, ou a chuva cadente em seus esplendor, iluminada pelos fantásticos raios que insistem em cruzar a planície. Bah! Percebi em “Desejo e reparação” um preocupação excessiva em fazer planos maravilhosos, cuidadinhos, com trocas de foco complexas e angulações “interessantes”. Nas cenas exteriores, cores bem demarcadas, como o vermelho do céu (já virou clichê), ou o acizentado do praia de Dunquerque após a tomada pelos Aliados. Sem dizer naquele plano-seqüência de, parece, seis minutos, que vai de nada a lugar nenhum. Li em alguns lugares que o diretor justificou que aquele é um momento decisivo para o personagem de James McAvoy (por sinal, um excelente ator, como já havia demonstrado em “O último rei da Escócia”). Discordo. Pareceu puro exibicionismo técnico.

Ao mesmo tempo, a trilha sonora, sobre a qual li várias críticas negativas, é ótima. Inteligente, funcional e criativa. A montagem idem, apesar de, em alguns momentos, parecer que tem medo que não entendamos o que está acontecendo.

Terminei a sessão com a sensação de que algo faltou. Não foi alguma parte específica da história (pois li o livro já há uns dois anos e não lembro de forma concreta de algum trecho – somente lembro emocionalmente). Talvez, ao assistir novamente, eu me identifique melhor. Talvez eu necessite de mais tempo para o filme maturar em minha cabeça. Pelo menos, deu para escrever alguma coisa a respeito, e dividir com você. Mas realmente ainda não sei bem o que pensar.

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Um comentário em “Sobre um filme do qual não sei bem o que pensar

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  1. queria ver esse filme, mas depois de ler seu texto quero ler o livro, eu amo o cinema mas os livros me fascinam.

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