Sombras de Goya – uma película ‘multi-pátrias’

Não lembro qual foi o primeiro filme de Milos Forman que tive o prazer de assistir. Seja qual for, todos os que vi gostei. Acredito que o primeiro foi “Amadeus”, um épico-drama-de-humor-negro. Depois, vieram os outros: “Um estranho no ninho” e os atuais, como “O povo vs. Larry Flint” e “O mundo de Andy”. Esse diretor tcheco iniciou sua carreira na antiga Tchecoslováquia mas depois foi exportado pelos americanos para fazer sucesso naquela terra do Tio Sam.

Natalie Portman já é conhecida do público cinéfilo. Aqueles que viram aquela menininha de original israelense surgir em “O profissional”, de Luc Besson, sabiam que se tornaria uma estrela. Alguns anos se passaram e teve performances marcantes – a principal em “Closer – Perto Demais”.

O espanhol Javier Bardem chamou a atenção de todos em “Carne trêmula”, de Almodóvar. Mas já havia participado de outros filmes de destaque, como aquele dos presuntos, de Bigas Luna: “Jamon, Jamon”. Antes disso viveu um tempo em Búzios, com seu irmão, mas hoje faz diversos filmes pelo mundo, impulsionado tanto por aqueles primeiros sucessos, quanto por sua atuação em “Mar adentro”, Oscar de Filme Estrangeiro de 2004. Dizem que sua atuação em “Onde os fracos não têm vez”, o western sui generis dos irmãos Coen que será lançado aqui em fevereiro, é excepcional.

Stellan Skarsgard é sueco e um coadjuvante comum nos filmes americanos. Podemos vê-lo em filmes como “Gênio Indomável” e “Ronin”. Porém, suas melhores aparições estão nos filmes de Lars von Trier, especialmente em “Ondas do destino”. É um ator forte e expressivo, mas possui alguns defeitos.

Quando descrevemos uma unanimidade, deve-se tomar cuidado para não exagerar nos elogios. Assim, quanto ao roteirista francês Jean-Claude Carriére, já falará por si enumerar os filmes aos quais roteirizou e o nome de um dos melhores livros de roteiro que já li: “A linguagem secreta do cinema”. Alguns dos seus filmes são: “O diário de uma camareira”, “A bela da tarde”, “Via Láctea”, “O discreto charme da burguesia”, “O fantasma da liberdade” e “Esse obscuro objeto do desejo”, todos de Buñuel. Também há a adaptação dos clássicos: de Günther Grass, “O tambor”; de Kundera “A insustentável leveza do ser”; de Rostand “Cyrano de Bergerac”; de Dostoievski, “Os possuídos” (‘Os demônios’). Dentre muitos outros filmes, também há Danton, de Wajda. O que dizer a mais?

Esses cinco artistas de diferentes países se encontraram, para criar uma obra que, em si só, já retrata uma mistura. “Sombras de Goya” (Goya’s Ghosts) ocorre na época da Inquisição Espanhola e envolve não apenas eles quanto franceses e ingleses. Não se atém a um fato isolado, mas expõe a complexidade de relações envolvidas num período de animalidade em que o poder clerical era utilizado como moeda de troca pelos mais diversos fins. A figura do pintor Francisco de Goya apenas surge como uma ligação e um ponto de encontro das tramas advindas. Stellan Skarsgard faz o pintor que busca auxiliar a jovem Inês (Natalie Portman) que é submetida ao interrogatório do Santo Ofício e encarcerada injustamente em seus porões. Em meio a este acontecimento, está o clérigo Lorenzo (Javier Bardem), personagem que sofre diversas reviravoltas, característica de sua personalidade ímpia e aproveitadora.

Há cerca de um ano, o livro “Os fantasmas de Goya” foi lançado aqui no Brasil, tendo como autores o diretor Milos Forman e o roteirista Jean-Claude Carriére. Confesso que o tema não me atraiu muito. Acabei por ir assistir devido à recomendação de algumas pessoas e matérias positivas que li na mídia.

Realmente, é um filme diferente, envolto por uma atmosfera purulenta, sem poupar o espectador das atrocidades que quer retratar. Uma fotografia realista, que mescla o colorido das vestes militares e do luxo (ou luxúria) palacial, com os obscuros porões do submundo e da imundície daquele plebe ignorante. Ao terminar o filme, há uma sensação de incompletude, pois a trama não finaliza no último ato, mas demonstra uma continuidade da qual temos ânsia, mas à qual não teremos contato.

No passado, grande diretores, como Visconti e Fellini, formavam seu elenco com atores e atrizes dos mais diversos países. O que importava era que esses atores, com seu talento se adequassem às figuras retratadas nos filmes. Depois, dublavam tudo em italiano e uma obra-prima estava pronta. Milos Forman faz a mesma coisa neste filme, apenas deixa de dublar e consegue encontrar um idioma em comum entre todos os artistas.

Ele é um diretor que não está nos maiores círculos de discussão. Porém, se sua obra for analisada, ele não fica a dever em qualquer um dos filmes. “Sombras de Goya” é mais um exemplo. Milos Forman fez os mais variados estilos, desde o drama convencional, até o filme de época, gangsters e musical. É um diretor para ser notado e assistido, não apenas comentado.

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2 comentários sobre “Sombras de Goya – uma película ‘multi-pátrias’

  1. já dá pra ser crítico…mas foi uma crítica de fã né…rs eu vou assistir com certeza!!!
    e vê se passa lá no meu blog!!! bjooos

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