Gritos, confusão, convicções e muito o que pensar

Hoje passei por uma situação. Não coloquei um adjetivo, pois não consigo decidir exatamente como avaliá-la. Não sei se foi uma situação incômoda, se foi uma situação péssima, ou se foi uma situação curiosa. Quem sabe, escrever este texto me ajudará a qualificar.

Como em muitos sábados, vou com meus pais almoçar numa lanchonete. É sempre a mesma lanchonete, a qual meu pai freqüenta há mais de quarenta anos. Começou a almoçar lá quando era estagiário-voluntário no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, na época em que cursava a Faculdade de Medicina. Quando casou, levou a família e, até hoje, vamos lá.

Almoçávamos tranqüilamente, quando fomos interrompidos por uma mulher que falava muito alto. Pedia para que a ajudássemos com qualquer quantia, pois seu filho sofria de paralisia cerebral. De pé, seguro por ela, que o agarrava pela cintura como se fosse um boneco, estava o filho. Era maior do que ela. Aquela senhora não deveria ter mais de um metro e sessenta.

O que impressionou foi a maneira como ela se dirigia a todos nós. Falava num tom muito alto, e fez a lanchonete silenciar. Meus pais e eu estávamos no segundo ambiente, o que a faria demorar para chegar até nós. Observei de longe, pois achei seu comportamento diferente do que já testemunhei daqueles que necessitam da caridade de outrem. Quando se aproximava de alguma mesa, sempre tinha algum comentário para fazer. Provavelmente agradecia. Algumas pessoas deram-lhe dinheiro, outras não. Essas também recebiam comentários, os quais naquele ponto eram inaudíveis para mim.

Ela chegou ao segundo ambiente, mas ainda demoraria para chegar perto de nossa mesa. Estávamos no fundo, próximos à entrada da cozinha. Neste instante, pude ver um pouco mais de perto o que fazia aquela mulher. Arrastava o filho e pedia de mesa em mesa, ainda num tom alto. Quando fazia algum comentário, já era num tom mais baixo. Mas agora estava mais perto, eu podia escutar.

Ao receber alguma nota, ela dizia: “Obrigada àqueles que me ajudam”, mas logo emendava “E aqueles que não ajudam, que vão ao diabo”. Achei que não tinha entendido. Continuei a observar. Vi ela chegar mais perto e, quando chegou às duas mesas que precediam à nossa, os detalhes foram enriquecidos: “Não vão me dar dinheiro, mas isso pode acontecer com vocês”, sempre num tom ameaçador e agressivo – o dedo em riste. Na outra, foi mais direta: “Então vai tomar no cu. Vai se foder.” Em seguida, chegou à nossa mesa.

Não íamos dar dinheiro a ela. Quando ela virou para nós que, como disse, estávamos perto da cozinha, o garçom apareceu para retirá-la. Mas isso, sem antes escutarmos: “Não encoste em mim. Vai se foder. Você vai ver se encostar um dedo em mim.” Lembre-se: isso tudo, com o filho sendo carregado pela cintura, e os braços dele a balançar pelo ar. Era uma cena muito triste, mas era sobrepujada pela atitude da mãe. Esbocei dizer para ela que não deveria xingar todas aquelas pessoas, mas logo ela já estava longe de mim. Senti-me mal.

Rapidamente, ela já estava na primeira mesa, na outra extremidade do ambiente em que almoçávamos. Era ao lado de uma mesa que tinha pais e três crianças de aproximadamente sete anos. A mulher gritava, ameaçava para que ‘não se atrevessem’ a encostar nela. Vi o segurança aproximar-se e tentar conversar. Ela estava intransponível. Continuava a xingar, a falar palavrões. Até que o segurança agarrou mãe e filho e quis retirá-los do local. Naquele momento, as pessoas que estavam no primeiro ambiente correram em direção ao confronto, para ajudar a mulher. Curioso dizer que quem estava no segundo ambiente não fez o mesmo. Acredito que não puderam ouvir exatamente o mesmo que tínhamos ouvido. Seria uma estupidez dizer que a lanchonete se dividia em boas pessoas (aqueles que estavam no primeiro ambiente) e más pessoas (aqueles que estavam no segundo).

Meu pai havia alertado a nós que, caso tentassem removê-la do local, haveria aqueles que correriam em seu socorro. Nos hospitais ocorre o mesmo, quando é necessário remover algum paciente ou acompanhante que tumultua o ambiente.

Quando olhei, o rapaz estava sozinho, largado, encostado à parede. A mãe agora preocupava-se em brigar. A muvuca demorou um pouco para se dissipar, mas terminou graças a algum arranjo diplomático por parte do segurança, de alguns garçons, alguns freqüentadores e a mãe do rapaz.

Não conseguíamos mais comer. Eu perdi a fome. Minha mãe não falava nada, mas vi que o estômago dela tinha virado. Ninguém mais se sentia confortável naquele lugar.

——–

Após este relato, que sei que em muitos aspectos acende as convicções de várias pessoas, tenho alguns questionamentos a fazer. Foi proposital descrever o fato que testemunhei da maneira que fiz acima, sem expor muito minha opinião.

Algumas coisas surgem em nossas cabeças quando vemos coisas deste gênero acontecerem. Coloco abaixo, apenas para direcionar um pouco a discussão.

* Até que ponto aquela mulher excedeu em seus direitos, ao clamar ajuda para seu filho? Tinha o direito de xingar e ofender as pessoas que estavam dentro da lanchonete? Pense que ela deve ter um histórico de dificuldades, sofrimento, e que poderia estar em seu limite. O desespero pode causar comportamentos surpreendentes, variando da fuga à violência.

* Qual a verdadeira assistência que existe em nossa rede pública de saúde, na qual sabe-se que este não é o único caso, muito menos o último? A rede burocrática impede que os mais necessitados consigam pronto atendimento e acompanhamento, o que estende o calvário de pacientes e familiares. Neste ponto, vemos como a ineficiência da máquina pública (lembre que estávamos ao lado do Hospital das Clínicas) reflete diretamente na sociedade. Num primeiro plano, na vida daquela mãe e filho. Colateralmente, no resto da sociedade. Aquele foi um fato isolado, mas uma metonímia de um caos que já se esboça. Poderíamos ir mais longe, pois há outros exemplos. A violência galopante também é devida à carência da sociedade. Mas não vamos mudar o foco.

* Deve-se dar esmolas? Qual a maneira correta de contribuírmos à sociedade, aplacar um pouco as diferenças e melhorar as condições daqueles que pouco têm? Acredito que a esmola não é o recurso mais eficiente (Já ouvi em alguns lugares que é eficiente para nossas consciências, pois pagamos e a pessoa vai embora, “não nos incomodando mais”). Prefiro a assistência direta dentro da comunidade, das entidades. Mas cada um deve respeitar as suas próprias convicções. Ninguém tem o direito de dizer o que as pessoas devem fazer ou não, contanto que façam por boa vontade, não por obrigação.

* Você concorda com a atitude do segurança?

* Muitas pessoas revoltam-se ao ver uma cena como a do segurança expulsando aquela mãe com o filho doente. Isso ficou ilustrado pela atitude dos freqüentadores que foram em sua assistência (aqueles que eu disse que estavam no primeiro ambiente). Mas pergunto: qual a diferença entre o direito daquela mulher e de cada uma das pessoas que estavam dentro da lanchonete? Seja os direitos daqueles que a ajudaram, daqueles pais que estavam com os três filhos, dos casais que vi serem mandados à merda, ou os meus e de minha família. Não quero parecer indiferente aos problemas daquela mulher, mas acredito que esta seja uma questão relevante.

——–

Por fim, posso dizer que achei o adjetivo que buscava. Não há outro que exprima melhor. A situação foi triste mesmo. Já tinha escrito isso antes, e é assim que permanecerá. Tudo isso que eu coloco em discussão apenas ilustra uma maneira de refletir sobre algo, sem ir direto ao recurso de julgar.

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2 comentários em “Gritos, confusão, convicções e muito o que pensar

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  1. Hugo,
    Foi uma situação constrangedora para todos nós. Não cabe aqui meu ponto de vista, mas comento o que disse na ocasião: que direito tem uma mãe de utilizar o filho com incapacidade físico-mental para agredir as pessoas, quaisquer que sejam? No mínimo, uma mãe desnaturada, se é que era realmente a mãe…
    Ainda mais, reparou como o filho estava razoavelmente bem vestido? Não era nenhum maltrapilho. A situação foi cuidadosamente planejada. Será que partiu dessa mãe “preocupada” com o filho, ou havia mais alguém por trás disso?

  2. oi, Hugo, realmente é uma situação triste, e até memso de indignar-se ou compadecer-se, como você mesmo colocou para fazermos pensar, indignação pela situação de desigualdade social, descaso das autoridades, sociedade, ou pela atitude de má fé, dissimudada e agressiva desta mulher?…enfim para pensarmos e não julgarmos, mas termos uma atitude de reflexão, o que e como podemos fazer algo? para mudar esta situação, ou até mesmo como reagir diante desta situação? creio que algo você já fez…bj. Ro.

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