Sombras da guerra e gigantes abatidos

Começam a aparecer filmes que têm como contexto a Guerra do Iraque. Assim como na época da Segunda Guerra Mundial, a batalha é mostrada nos filmes e o efeito do combate na população americana também. Na época da Guerra do Vietnã, havia poucos filmes a respeito, os quais apenas surgiram em maior número a partir da metade dos anos 70.

Fui assistir ao filme “No vale das sombras” (In the valley of Elah), dirigido por Paul Haggis e estrelado por Tommy Lee Jones, Charlize Theron e Susan Sarandon. Paul Haggis é um cineasta da moda. Fez os ótimos roteiros dos três últimos filmes de Clint Eastwood e dirigiu o penúltimo ganhador do Oscar, o duvidoso “Crash – sem limites”.

Não sei se foi o meu excesso de expectativa, mas não gostei muito do filme. Atente para o fato que o filme não é ruim. Mas também não é um excelente filme. Talvez aconteça com ele o mesmo que aconteceu com “O segredo de Brokeback Mountain” (que injustamente perdeu o Oscar exatamente para “Crash”). Não havia gostado muito do filme de Ang Lee quando assisti no cinema mas, por algum motivo, ficou em minha mente. Com o tempo, a insistência de suas imagens em minha lembrança me aguçou a vontade de rever e, quando o fiz, gostei muito. Assisti ao filme de Haggis ontem e acordei pensando nele. Ainda não sei muito o porquê.

Tommy Lee Jones é um sargento do Exército, reformado, que fica sabendo que seu filho sumiu enquanto estava de licença da Guerra do Iraque. Logo no início descobre-se que ele havia sido morto e iniciam as investigações, que envolvem a polícia local, o Exército, seus ex-colegas de pelotão e o próprio pai. Isso é o que basta para darmos a idéia do que acontece.

Enquanto assistia, lembrei muito de outro filme. No início dos anos 80, o cineasta Constantin Costa-Gravas ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes por um excelente filme chamado “Missing – o desaparecido”. Jack Lemmon fazia o pai que ia ao Chile para procurar o filho desaparecido pela Ditadura chilena de Pinochet. Os meandros burocráticos que Lemmon tem que enfrentar assemelham-se às dificuldades que o personagem de Tommy Lee Jones encara junto à polícia e, principalmente, ao exército americano. Em ambos os filmes pode-se perceber o afastamento do leitmotiv “onde está meu filho”, para uma aproximação e mergulho na angústia daquele pai e centralização em seu papel.

Exclusivamente quanto ao personagem de Tommy Lee Jones, ele demonstra uma frieza contida, a qual parece que nunca será abalada. Mas este ator, acostumado a interpretar papéis contidos e inabaláveis (como o conhecido delegado federal em “O fugitivo”, ou até mesmo seu papel em “Céu azul”), demonstra superação. Ele se mantém contido, porém seus olhos transparecem aquela angústia que mencionei anteriormente e percebemos que ele está a um ponto de ruir. Isso fica claro na cena em que ele tem que contar à sua esposa (Susan Sarandon) a morte de seu filho.

A metáfora traçada por Paul Haggis referente ao título do filme é duvidosa e levanto a questão. Em certo ponto, o sargento conta ao filho da policial que o ajuda (Charlize Theron) a história de Davi e Golias. Resumo: todos os dias, o gigante filisteu Golias desafiava alguém do exército israelita a descer ao vale de Elah para enfrentá-lo. Os hebreus, com muito medo, não desciam, e os filisteus humilhavam aquele povo devido à sua covardia. Até que aparece Davi, uma pequena criança, que decide enfrentar o gigante. Com apenas cinco pedrinhas, ele desce à planície e aceita o desafio daquele filisteu. Enquanto o gigante corre em extrema velocidade em sua direção, Davi permanece parado e, sem titubear, mira sua atiradeira e atinge com uma daquelas pedrinhas no meio da testa de Golias, que cai com o crânio rachado.

Aí eu pergunto: nesta leitura, quem seria Davi e quem seria Golias? Qual a intenção de Paul Haggis ao trazer este conto bíblico? Uma primeira suposição seria de um apontamento patriótico, no qual colocaria os americanos no papel dos justos israelitas lutando contra os bárbaros iraquianos, como se estes fossem o gigante Golias que todos temiam enfrentar. Ou seria o contrário, numa segunda opção, na qual retrata os americanos, armados com sua tecnologia e seus bilhões de dólares, como aqueles que são temidos por todo o mundo. Os iraquianos que, em sua maioria, são pessoas comuns que vivem numa civilização atrasada, têm que enfrentar com paus e pedras a invasão de seu território.

Lembrem que esta seria a segunda pedra na testa do gigante americano, pois os vietnamitas já lançaram a primeira há três décadas e racharam profundamente a alma yankee. Os acontecimentos narrados em “No vale das sombras” esboçam como os Estados Unidos sofrem atualmente devido à guerra. A mídia não divulga muito, devido talvez ao conhecido esforço de guerra, mas a indústria do entretenimento começa a expor sua visão.

Por hora, este foi o filme que assisti. Em breve, haverá outro dentro do mesmo contexto da guerra, que ainda não possui título brasileiro: Redacted, dirigido por Brian De Palma. Li críticas muito boas a respeito do filme e estou muito curioso.
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2 comentários em “Sombras da guerra e gigantes abatidos

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  1. Muito boa sua crítica sobre o filme, Hugo. Tendo a acreditar na segunda opção como metáfora ante a história de Davi e Golias. Muito interessante também a comparação com o Missing. A propósito, você já viu “O Corte”, um dos filmes mais recentes de Costa-Gravas?

    Grande abraço,

    (obs: muito obrigada pelo comentário em meu blog)

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