Iwo Jima: dois olhares sobre a mesma dor


Sempre gostei dos filmes dirigidos por Clint Eastwood. Nos últimos quinze anos, foram lançados títulos elementares, como “As pontes de Madison”, “Sobre meninos e lobos”, “Menina de ouro” e o clássico “Os imperdoáveis”. Li, na ocasião do lançamento de “Sobre meninos e lobos”, a admiração que os europeus nutrem por ele. E concordo. Possuo certas reservas quanto a alguns aspectos de seus filmes, mas nada que tenha desviado minha admiração. Há alguns filmes de Clint Eastwood que ele conclui de forma equivocada. Mas é equivocada em minha opinião. Ele construiu a peça de acordo com suas convicções e levando em consideração aquele conclusão que ele pretendia nos mostrar. Bem, mas isso é outra discussão.

Recentemente, tive a oportunidade de assistir aos dois últimos filmes de Clint Eastwood. “A conquista da honra” e “Cartas de Iwo Jima” foram lançados no mesmo ano, no intuito de mostrar os dois lados da sangrenta batalha ocorrida na ilha de Iwo Jima durante a Segunda Guerra Mundial. Além da oposição dos olhares (o primeiro filme é pela visão dos americanos, enquanto o segundo é pela visão dos japoneses), há uma diferença na proposta. Esta diferença aponta a forma como cada um dos países encarava a esforço de guerra. Enquanto os americanos se apoiavam na mídia e na divulgação de seus heróis para arrecadar fundos para o financiamento da batalha, os japoneses se concentravam na determinação de seus soldados e no compromisso de proteger seu solo imperial.

Ao demonstrar os dois lados da batalha, onde os papéis de heróis e vilões se invertem ao trocar dos filmes, Clint aproxima-se de atingir certa isenção. Lembre que a identificação do espectador com os personagens se dá a partir do momento em que o próprio espectador consegue definir para “qual lado está torcendo”. O pensamento maniqueísta fala alto no entendimento da trama e nos faz pensar: “Esses são bons, aqueles são maus”. Porém, quando temos num curto período de tempo a possibilidade de fazer essa inversão, confundimo-nos nesta identificação e nos colocamos dos dois lados da guerra de forma igual. Na minha opinião, o diretor conseguiu escapar da cilada de ser patriota em “A conquista da honra” e ser documental em “Cartas de Iwo Jima”. Ele acaba sendo menos patriota no primeiro, ao criticar a exploração sobre a divulgação do hasteamento da bandeira americana na ilha, e afasta-se do simples retrato das tropas japonesas para adentrar no sentimento familiar dos combatentes que, em alguns momentos, chegava a fazê-los questionar até que ponto valia a pena defender até à morte a sua pátria.

As cenas de batalha são impressionantes. No histórico de filmes de guerra, pode-se ver muitas batalhas, mas carregadas com certa pirotecnia que afasta do retrato realista que é possível ver nos dois filmes. Anteriormente, “O resgate do soldado Ryan”, de Steven Spielberg, conseguia este feito. A cada cena, a cada plano, pode-se ver como era fácil ser baleado, ter um membro arrancado, ser morto. As balas voam soltas pelo ar, as bombas explodem de forma desajustada. Qualquer um pode ser atingido. A idéia que tínhamos nos filmes mais antigos de que o herói sobrevive no final após realizar sua missão é anulada. Permanecemos o tempo todo vigilantes, pois qualquer um pode ser atingido naquela terra de ninguém.

Quem procura muita ação pode ficar decepcionado. Os dois filmes são envoltos por tramas paralelas que podem incomodar aqueles que procuravam um filme de guerra nos padrões antigos.

Clint Eastwood se mostra cada vez mais um diretor eclético. Fez filmes faroeste e policial devido, como poderíamos dizer, a seu histórico como ator, que concentrou em grande parte estes dois gêneros. Porém, já criou suspense, drama, e agora estes dois filmes de guerra. É alguém que merece uma análise detalhada de sua obra.

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Um comentário em “Iwo Jima: dois olhares sobre a mesma dor

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  1. Grande análise essa sua, Hugo!
    Só pelo fato de Eastwood propor uma visão mais ampla sobre uma guerra já é de se tirar o chapéu. Quando se trata de um evento envolvendo o próprio país, mais admirável ainda. Ainda não assisti a nenhum dos dois, mas confesso que fiquei com mais vontade depois de ler sobre eles.
    Abraços!!

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