Prosa sul-africana a la Loach

Lembro-me da primeira vez que vi o livro. Era uma capa totalmente verde, com o título em branco, jogado num canto, como se ele fosse a parte menos importante da informação. O que importava era aquela imensidão verde, quase a bandeira da Líbia. Mas não me interessei pela leitura. Era apenas mais um volume dentre tantos outros que me maravilhavam na estante da livraria. Ainda mais, aquele autor era totalmente desconhecido. Quem era esse tal de J. M. Coetzee?

Algum tempo depois, ao acompanhar as premiações do Nobel, me surpreendo em ouvir o nome deste escritor. Sul-africano. Sul-africano? Os últimos anos do Nobel haviam sido generosos, ao premiar um português, um alemão, um chinês. Agora, era um sul-africano. Pensei: ‘tudo bem, o cara deve ser bom’. Nas notícias que saíram a respeito dele, listaram os livros disponíveis e os que estavam por sair devido à sua premiação. Enfim, premiações geram renda. E reconheço que eu também sou fonte dela, pois também me guio pelos prêmios para, ao menos, conhecer artistas. Pelo menos uma obra deve ser contemplada. Dentre as imagens dos livros dele, lá estava aquela capa verde. O livro se chamava “Desonra”.

Guardei as informações na mente e, alguns anos depois, encontrei a oportunidade de adquirir um livro de Coetzee. Cheguei a ficar em dúvida, pois o mapa da Libia havia sido exterminado. Em seu lugar, uma capa marrom, com um desenho moderno, ostentando em seu rodapé o logo da editora e a chancela do Prêmio Nobel. A Companhia das Letras adora fazer isso. Fez com o Saramago, extinguindo as ótimas capas que havia planejado, para padronizar de outra forma, como homenagem a seu prêmio Nobel em 1998.

Apesar do choque estabelecido entre o presente e minha memória, acabei comprando o livro. Logo iniciei a leitura. Terminei muito rápido. Um livro de leitura fácil. Tema difícil, mas de transmissão eficiente. Imagine um professor universitário que se envolve com uma aluna e acaba acusado de assédio sexual. Ao recusar se defender, acaba exonerado e vai morar com a filha no interior do país. Lá ele verifica as condições do campo, com a disputa de terras imersa num contexto de rancor racial e violência social. Tudo acaba por servir como válvulas que expõe as dificuldades de relacionamento entre pai e filha, homem e amantes. E entre os cidadãos.

A simplicidade do enredo torna a complexidade do tema chocante de tal forma, que nos sentimos parte daquela situação. Lembrei-me dos filmes de um cineasta que admiro muito: Ken Loach. Seria um ótimo livro para ele adaptar, pois adora utilizar histórias pontuais, inseridas num microcosmo, como um reflexo do comportamento de uma sociedade inteira.

A cena capital do livro é narrada de tal forma, que confesso ter chorado ao ler. E não chorei devido a uma suposta beleza estética, e sim pela capacidade que ele teve de me fazer sentir parte do que acontecia e vivenciar aquele drama tão intensamente.

Recomendo sem reservas a leitura de “Desonra”. Assim que der, lerei os outros livros de Coetzee, quem agora deixou de ser um completo estranho para entrar numa relação de autores que conheço e que quero conhecer mais.

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