A Olimpíada terminou. Pequim se consagrou como berço dos jogos monumentais, das construções gigantescas, de inúmeros recordes quebrados e de Michael Phelps. Porém, não estou aqui para falar das oito medalhas de ouro do nadador americano, ou de Usain Bolt, Leonel Messi ou Kolb Bryant. Muito menos estou aqui para criticar a quantidade de atletas nacionalizados que competiram por outros países. Apesar de achar uma vergonha, deixarei para outra oportunidade.
A vergonha não é essa.
A cada Olimpíada que passa, fico aborrecido com nossos resultados. Claro que comemorei todas as medalhas e valorizo aqueles atletas. Porém, não devíamos nos questionar? Como um país que pretende sediar os Jogos Olímpicos tem um desempenho tão pífio? Já esteve pior, disso nós sabemos. Nos jogos de Sidney, em 2000, não tivemos sequer um ourozinho.
O governo diz que investe no esporte. Investe onde? Vocês acham satisfatório nosso desempenho? Há quantos anos ouvimos a mesma balela de que o país está se desenvolvendo, que está tratando o esporte de forma mais profissional? Este trabalho deve iniciar quando as crianças são pequenas, com a disponibilização de centros esportivos gratuitos que estejam abertos a elas. Deve haver uma peneira, como é feito no futebol? Sim, porém após um determinado tempo de exposição destas crianças às diversas opções de esporte.
Treinei e competi no Centro Olímpico do Ibirapuera. Vá até lá e veja a condição da pista de atletismo, do material esportivo, das quadras. Verifiquem a estrutura e vejam se é possível levar a sério. Lembro uma ocasião em que corríamos na pista quando um dos vários cachorros que circundam a pista saiu correndo atrás de um colega meu. Tudo bem, talvez ele tenha corrido um pouco mais rápido nesta hora, mas o cachorro depois não aceitou ser contratado como assistente de nosso treinador.
Um país que quer ter um projeto olímpico precisa de investimento maciço. Este investimento significa dinheiro, estrutura, pessoal e intercâmbio. Veja o César Cielo. Ótimo desempenho, com duas medalhas. É vinculado ao E.C. Pinheiros, mas treina nos Estados Unidos. Quantos outros atletas olímpicos não treinam em nosso país? O que há lá fora que não encontram aqui? Exatamente os quatro itens mencionados acima.
Citemos dois exemplos positivos, para vermos como é possível desenvolver. O voleibol, por meio de uma excelente organização, investimentos e seriedade se tornou o esporte mais importante do país. Apesar disso, grande parte de nossos jogadores competem no exterior. Deveria haver estímulo para um maior desenvolvimento das ligas nacionais. A Liga de Volei é boa, mas poderia ser muito melhor. E isso deveria haver em todos os outros esportes. Outro caso é a Ginástica Artística, que não tinha resultados expressivos e, após investimento e a importação de técnicos experientes, cresceu muito. Nossos técnicos nacionais de ginástica são bons, porém Oleg e Irina trouxeram a experiência do exterior para estruturar tudo.
Agora me fale por que isso não é feito nos outros esportes. O que aconteceu com o basquete? Sei que não é caso de investimentos, mas faz parte dos problemas deste suposto “Projeto Olímpico”. Por que não fazer com o tênis de mesa, com o ciclismo, com o Tae Kwon Do, com o pentatlo moderno, com o tiro, o halterofilismo, a esgrima e etc. Todas estas medalhas valem tanto quanto uma suposta medalha no futebol masculino, coisa que toda vez é o centro das atenções. Não seria possível aplicar mais recursos no Judô, modalidade que já nos deu tantas conquistas? Será que não era possível investir até mesmo num esporte de elite como as modalidades da Vela?
Sou completamente contrário à Olimpíada ser no Brasil. Sabemos muito bem que a intenção de nossos governantes é fazer o caminho inverso das coisas: conseguir ser sede para chamar investimentos e consertar aquilo que eles não fazem. A China investe há anos no esporte e apenas agora tornou-se sede. Dos poucos concorrentes à Olimpíada de 2016, fico com Tóquio! Apesar de já ter sido sede nos anos 60, prefiro que seja por lá. Devemos resolver nossos problemas por aqui para depois concentrarmos jogos destas proporções em nosso solo. E não venham dizer que o Pan 2007 foi ótimo! Vocês viram o Michael Phelps aqui? Quantos atletas de ponta estiveram por aqui? Os americanos, que são os “bichos-papões”, não vieram ao Pan, coisa que dificilmente fazem mesmo.
Ainda estamos muito abaixo daquilo que poderíamos ser. Não precisamos ter a maior quantidade de investimentos do mundo, mas precisamos aumentá-los e utilizá-los com sabedoria. A seriedade deve existir em todos os níveis, em todos os lugares, em todas as pessoas e em TODAS AS MODALIDADES. Enquanto não equilibrarem esses investimentos e apoio, não seremos expressivos. Quando isso começar a ser feito, poderemos começar a protelar ser sede cerca de quinze anos depois, o que corresponde a uma geração de crescimento.