Blogueiro Convidado: Fred Linardi
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Não sei como o mundo dos palhaços invadiu meus interesses, minha busca por produções do estilo e, aos poucos, a minha vida – prevejo. No entanto, posso dizer que meu gosto por este mundo clownesco vem de longa data, quando eu ainda nem podia perceber. Claro que cansei de ir a circos quando criança e assisti a inúmeras vezes palhaços que se apresentavam na televisão. Mas não conseguia associar, por exemplo, a figura de Charles Chaplin com a de um palhaço. Ao menos não como a de um palhaço de circo, que faz apenas as palhaçadas pastelonas, ficam ensopados com baldes d´água e melecados com torta na cara.
O fato é que, com o tempo, passei a valorizar a figura do clown e, nem se eu quisesse, não poderia deixar de eleger o próprio Carlito como figura exemplar da arte. O drama levado ao cotidiano e aos prazeres e desprazeres da vida o fez complementar ricamente o universo de um palhaço errante que sente, que ama e sofre. Ao assistir pela primeira vez aos seus filmes, quando a TV ainda se preocupava em passá-los mesmo que tarde da noite, minha fascinação já foi fisgada. Viajava com meus pensamentos de como seria assisti-los ainda na época em que eles foram lançados no cinema, com aquela confusão na platéia tão bem retratada em filmes como Cinema Paradiso e o próprio filme Chaplin, estrelado em 1993 por Robert Downey Jr.. Seria uma eterna frustração para mim. Até esta semana.
Ontem, abruptamente, esta sensação foi vivida em cada fio de cabelo e em cada um dos pêlos arrepiados ao assistir ao espetáculo L´Oratório D´Aurelia. Mesmo fugindo da proposta e contexto que Chaplin criava em seus filmes, foi possível presenciar o mais fino humor, a essência da pantomima circense transportada ao teatro, no palco do Sesc Vila Mariana. Por ficar sabendo do espetáculo na última hora, foi do mezanino que vi as encenações e movimentações do casal protagonista da peça interagindo entre si e entre elementos imaginários e surrealistas. Aurélia começa atuando de dentro das gavetas de uma cômoda, puxando panos vermelhos e pretos que futuramente se emendam com a cortina do palco, balançando suas estruturas e levando a protagonista consigo às alturas, se enveredando nas acrobacias e voltando ao solo para dar seqüência a um espetáculo de duas horas, repleto de ilusionismos e graça. A inventividade é o tom de uma apresentação em que Aurélia contracena quase o tempo todo com um homem sem nome, encenado pelo dançarino norte-americano Timothy Harling, capaz de surpreender pela expressão corporal e envolver a platéia em risos e palmas.
Ontem pude finalmente me sentir no ambiente mais clownesco que jamais estive, depois de já tê-lo conferido em outros como o Cirque du Soleil o ou Slava Snow Show. No Oratório pude sentir a magia de Chaplin mais perto, não só pelo fato de Aurélia Thierrée Chaplin ser a neta do gênio e ter nascido em família que cultiva esta arte de forma primorosa (sua mãe, Victoria Chaplin, é a diretora do espetáculo). L´Oratorio d´Aurelia é a própria ousadia da arte, feita por artistas que acreditam nela o suficiente para sempre inovar, trazendo ao público as situações corriqueiras e resgatando a mais singular tradição.
Escrito por Hugo Harris