Soletre agora M-I-N-A-S G-E-R-A-I-S

31 Maio, 2008

Temos uma mania constante em criticar os programas da televisão. Sem dúvida, a grande maioria é porcaria, alienante ou apelativo. Porém, quando surge algo bom, estimulante e educativo, temos que elogiar.

 

Não gosto de todos os quadros do “Caldeirão do Huck”. Porém, temos que tirar o chapéu para o SOLETRANDO. A vitória do menino Éder foi emocionante. Fiquei impressionado desde as eliminatórias (se não me engano, ele participou da segunda eliminatória, há mais de dez semanas) com a velocidade que ele soletrava, sem perguntar nada e sem titubear. Não errou nenhuma letrinha (apesar de que hoje pareceu que tinha errado – ele mesmo se lamentou – mas acredito que o programa não percebeu, pois ele se confundiu ao dizer a letra D, falando a T, que tem quase a mesma pronúncia).

 

O alcance da televisão brasileira é imenso, e sua influência é até difícil de mensurar. Isso pode acontecer para o bem ou para o mal. Mas alguém tem dúvida se este quadro não estimulou a criançada a estudar? Alguém acha que o interesse pela língua portuguesa não aumentou?

 

Além disso, veja a oportunidade que este garoto recebe. E, melhor ainda, com MÉRITO DELE. Ele não ganhou um sorteio, nem mesmo dependeu da simpatia do público. Estudou em casa, com toda a dificuldade inerente aos habitantes do Vale do Jequitinhonha. Mostrou que tem um talento especial. Venceu a concorrente do Paraná, que também era muito boa (além de enorme!!!), e a do Rio de Janeiro, que cometeu uma falha durante a soletração, percebida por ela antes mesmo de completar a palavra.

 

Quem olha para este garoto mineiro, vê que é muito simples e extremamente tímido. Mal conseguia falar ao microfone. A mãe só sabia chorar. Imagine: eles têm uma renda mensal de R$200,00 por mês (contando o Bolsa Família, de mais de R$100,00), e agora terão um cheque de R$100.000,00 para investir no menino. Vamos torcer para que utilizem este dinheiro com sensatez, sem desperdiçar. Quando Éder conseguiu falar alguma coisa, disse para o apresentador que pretende cursar a faculdade de Economia. Vamos torcer para ele. Num país em que tão poucas pessoas têm oportunidade, temos que torcer por estes que conseguem. Imagine quantas pessoas com potencial deixam de ter oportunidades para que surja “um Éder” entre eles.

 

Destaque final para o Rap do Soletrando que Gabriel, o pensador escreveu e cantou.

 

Espero que este quadro continue no ano que vem, e que realmente tenha o tal do “Calculando”, no segundo semestre, para os alunos que gostam de matemática.


Videoclipe ultraviolento abala os “coitadinhos” dos europeus

25 Maio, 2008

Fiquei sabendo de um videoclipe que foi proibido em grande parte da Europa e que tem causado grande polêmica devido ao alto grau de violência contido nele. Chamou minha atenção pelo fato de tentarem traçar um parelelo com obras cinematográficas que trabalhavam a banalização da violência, como “Laranja mecânica” ou “Violência gratuita”.

O clipe da música Stress, da dupla francesa “Justice”, causou um alvoroço. As televisões européias proibiram sua exibição, intelectuais opinaram e até chegaram a comparar com preceitos nazistas. CREDO! Resolvi que ia assistir ao clipe e colocar aqui a minha singela opinião a respeito. Ao mesmo tempo, para aqueles que ‘tiverem estômago’, dou a oportunidade de assistirem e emitiram suas próprias opiniões.

Sou contrário às sanções e a esta hipocrisia que alguns chamam de censura. Não digo que sou a favor do caos e da falta de controle, mas acho que as pessoas ficam sedentas para encontrar algum bode expiatório e descarregar sua ânsia pela moralidade – que está represada nesta impotência da sociedade frente às mazelas dela própria – no primeiro que aparecer.

Na minha visão, o videoclipe é bem pesado, realista, mas não é censurável. Aborda um tema atual, que transita entre a violência (tema mais direto), a exclusão social, a revolta e, por que não, a própria impotência. Não venham me falar que as criancinhas assistirão a este clipe e começarão a socar os cidadãos e incendiar a cidade. Estas atitudes não surgem por estes motivos e, sim, como resultado de um conjunto de problemas dentro da sociedade somados a uma tendência à sociopatia. Por que estas mesmas televisões que censuraram o videoclipe não deixam de exibir matérias a respeito da Guerra do Iraque, a respeito das guerras civis na África (apesar de que isso precisava maior divulgação), ou sobre crimes dantescos que ocorrem nos países de sua comunidade (temos alguns exemplos austríacos para começar, não é?).

Há formas e formas de criticar a conjuntura de sua sociedade. Você pode fazer críticas construtivas e apontar soluções, pode reclamar o tempo todo e ficar dentro de casa abraçado ao seu travesseiro ou pode ir diretamente ao ponto e encravar na carne a reprodução (ou reconstituição) da dura verdade de uma realidade que nem sempre estamos em contato mas que está lá, do lado de fora.

Abram os olhos e pensem melhor quem vocês devem censurar.

Veja o videoclipe, mas cuidado: realmente é duro.


Encontro com Saramago em cinema de Lisboa

24 Maio, 2008

Autor: Fernando Meirelles

Fonte: Folha de S. Paulo / 21-05-2008

Depois de uma semana que pareceu uma verdadeira montanha russa emocional, saí de Cannes no sábado e fui para Lisboa mostrar o filme “Ensaio sobre a Cegueira” para o autor da história, José Saramago.

Por meses, antecipei o quanto a sessão me deixaria ansioso -e não estava errado.

Infelizmente, o cine São Jorge, que nos foi reservado, não tinha projeção digital, então foi improvisado um sistema para passarmos nossa fita. Pensei em desistir de mostrar o filme ao ver um teste da projeção, mas o escritor já estava na sala de espera e, em respeito ao compromisso, achei melhor ir em frente.

Sentei-me ao seu lado, expliquei aos poucos amigos presentes que só havia legendas em francês e começamos a ver o filme. Sofri cada vez que uma imagem não aparecia ou que uma música mal soava. Ele assistiu ao filme todo mudo e sem reação nenhuma.

Ao final da sessão, quando os créditos começaram a subir, sua mulher, Pilar, debruçou-se sobre Saramago e me agradeceu, emocionada. Silêncio ao meu lado. Antes de terminar os créditos principais, as luzes do cinema foram acesas, eu ousei olhar para o lado e vi que ele fitava a tela sem reação, como se estivesse interessado no nome dos assistentes de cenografia que passavam.

Deu tudo errado, pensei. Toquei seu braço levemente e lhe falei que ele não precisava comentar nada naquele momento, mas, então, com uma voz embargada, ele me disse, pausadamente: “Fernando, eu me sinto tão feliz hoje, ao terminar de ver este filme, como quando acabei de escrever “O Ensaio sobre a Cegueira’”.

Apenas agradeci e ficamos ali quietos. Dois marmanjos segurando as próprias lágrimas em silêncio. Ele passou a mão nos olhos, disfarçando a sua. Pensei no meu pai. Emoção sólida, dessas que se pode cortar em fatias com uma faca. Num impulso, beijei sua testa.

Na conversa e no jantar que se seguiram, ele disse que não considera o filme um espelho de seu trabalho e que nem poderia ser assim, pois cada pessoa tem uma sensibilidade diferente.

Disse ter gostado da experiência de ver algo que conhecia, mas que, ao mesmo tempo, não conhecia. Falou que o filme não era perfeito, mas que nunca havia assistido a um filme perfeito. Comentou algumas imagens que o emocionaram especialmente e disse ter achado o nosso Cão das Lágrimas muito doce; preferia que fosse mais agressivo.

Críticas
Quando lhe contei sobre as críticas favoráveis e contrárias ao filme em Cannes, incluindo a da Folha, ele imediatamente lembrou e recontou aquela historinha do velho que vem puxando um burro montado por uma criança.

Um passante vê aquilo e acha absurdo a criança estar montada enquanto um velho caminha, então eles invertem a posição. Outro passante cruza com o grupo e reclama da situação: “Como um adulto deixa uma criança a pé enquanto vai confortavelmente montado?”.

Então, os dois montam no burro, mas alguém acha aquilo uma crueldade com um animal tão pequeno.

Finalmente, resolvem ambos carregar o burro nas costas, até que outro passante observa como são estúpidos por carregar o animal. E, enfim, o velho decide voltar para a primeira situação e parar de dar importância ao que dizem.
“É isso que faço sempre”, concluiu o escritor.

Acabo de deixar José Saramago e sua mulher no Ministério da Cultura de Portugal, onde está sendo exibida uma retrospectiva de seu trabalho e sua vida.

Houve uma pequena coletiva de imprensa ali, depois de visitarmos juntos a exposição. Meu filminho de menos de duas horas me pareceu muito insignificante ao ser colocado ao lado daquela obra de uma vida inteira.


Ele está de volta!

21 Maio, 2008

Faz mais de um mês que não escrevo para este blog, mas tenho um motivo especial. Finalizar dissertação não é fácil. Porém, um motivo mais especial ainda me traz de volta temporariamente. INDIANA JONES!!! Ou você achava que o título deste texto era referente a mim?

 

Eu, como a maioria dos “Indianamaníacos”, esperei anos por uma nova aventura do arqueólogo aventureiro. Deve ter entrado para o livro dos recordes na categoria “maior número de especulações”, pois as mais diversas possibilidades foram levantadas sobre qual seria o enredo do quarto filme. Depois diziam que Harrison Ford não teria condições de fazer, por já estar muito velho, outros diziam que Sean Connery não participaria – bem, ele não participou.

 

Fui assistir à pré-estréia de “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” no Cine Bristol. Teria uma sessão especial na sala 05, onde estava passando “O sonho de Cassandra”, o mais recente filme de Woody Allen que aparece em nossos cinemas. Após os trailers, adivinhe: começa a passar o filme do Woody Allen. A platéia foi abaixo.Várias pessoas levantaram xingando, inconformadas. Eu estava dando risada. “Esperei quase vinte anos, posso esperar mais quinze minutos”. Depois a confusão foi consertada.

 

Quanto ao filme, posso de cara dizer uma coisa: se achávamos que o filme viria na mesma formulinha dos outros três, estávamos certos e errados. Tem os mesmos ingredientes de aventura e mistério, socos, pontapés, efeitos sonoros característicos da série e a dose de conceito acadêmico necessário. Porém, o enredo ousa. Não vou revelar exatamente em quê, mas Spielberg corre um risco que talvez não fosse necessário. Um risco que me fez questionar antes de sair da sala se eu havia gostado ou não do filme. É uma ousadia tão extremada que quase bota a perder a história inteira. Quase faz o filme ficar à parte do que era aquela série consistente. Quase faz gritarmos: “Picareta!” Mas é sempre quase.

 

Tem algumas passagens forçadas, mas isto já faz parte da mística dos filmes de Indiana Jones. Além de umas gags desnecessárias, como o excesso de toupeiras assistindo os acontecimentos no início do filme.

 

O elenco é muito bom, com a volta de Karen Allen, e o surgimento de Shia LaBeouf, Cate Blanchett, Jim Broadbent e John Hurt. Jim substitui o personagem do falecido Denholm Elliot e John Hurt o papel que seria para o pai de Indiana. Harrison Ford não fica a dever na performance dos outros filmes, principalmente nas cenas de ação que seriam o maior problema. Até chegam a brincar com isso no início.

 

É bom ver Spielberg de volta aos filmes de aventura. Porém, talvez vocês achem que é outro gênero. Mas vou parar por aqui…. Assistam!