
Não estou aqui para ensinar-lhe a utilizar o trema. Para isso existem inúmeras publicações, dicas, ensinamentos, etc.. Procure, pois a explicação é simples. Basta ter atenção no momento da escrita. Estou aqui para rogar a ti que utilize o trema e que parem com esta perseguição covarde e indigna contra ele.
Normalmente, apenas respeitamos os acentos que nos indicam o tom em algum vocábulo. Assim, os acentos agudo, circunflexo e o til têm vantagem. Por outro lado, há dois que sofrem mais: o acento grave e o trema. O acento grave é aquele utilizado nas crases, no aditivo entre preposição e artigo ou preposição e primeira sílaba de alguma palavra (à, às, àqueles, àquelas…). Mas este artigo não é sobre a utilização da crase – apesar dela ser outra injustiçada na Língua Portuguesa. Nem sobre outras ferramentas perseguidas, como a travessão, o ponto e vírgula ou o ‘bendito’ uso do por que, porque, por quê e porquê. Queira ou não, goste ou não goste: esse texto é sobre o trema.
Não agüento (olha o trema aí!) que toda hora a gente lê em algum lugar que ele foi abolido. Ou que na próxima reforma da Língua Portuguesa será extirpado de nossos anais, como um acento leproso dentre outros sãos. Numa breve pesquisa que fiz, descobri que na última reforma que houve nas normas de nossa língua, ocorrida em 1971 (vejam: 1971!!! Depois disso, não houve nenhuma que tenha sido ratificada), realmente o trema foi abolido. Pasmem!! E agora, em que acreditar? Calma! Calma! Leia o resto. Foi extinta a utilização deste acento apenas num caso específico: era utilizado – de forma facultativa – para distingüir (olha o trema aí de novo!!) um hiato que poderia ser confundido com ditongo. Por exemplo, quando pensamos num país pequeno, chamamos de paisinho. Faríamos a distribuição de sílabas assim: pa-i-si-nho. Para ninguém confundir com uma forma carinhosa de chamar ao seu pai (– Venha, meu ‘paizinho’.), que teria uma separação pai-zi-nho, eles colocavam um trema ao escrever a primeira opção: païsinho.
Essa foi a única reforma referente ao trema.
O resto permanece. A utilização do trema em qüe, qüi, güe, güi ainda é válida. E espero que não desapareça. O trema é um acento que chamamos de diacrítico, pois atribui um som diferente a uma letra. Isso acontece também, por exemplo, com a cedilha. Quando colocamos aquela ‘cobrinha’ embaixo da letra ‘c’, significa que terá aquele sonzinho, exatamente, de cobra (“sssssssssss”). Ou vocês também querem a abolição da cedilha, por esta ser ‘inútil’?
Alguns dizem que o uso do trema é uma frescura. Eu não penso assim. Há alguns veículos da mídia que até desistiram de sua utilização. Seja para “facilitar a comunicação”, seja para ”deixar a linguagem mais limpa”. Para mim isto é pura preguiça e irresponsabilidade. Todos estes sinais que mencionei até agora possuem sua utilidade. Não importa que já saibamos como se pronuncia tal palavra. O que importa é que daqui a cem anos as pessoas devem continuar a saber como pronunciar a tal palavra. Por que palavras acentuadas com graves e circunflexos devem ser mantidas e o trema deve ser abolido? Só porque um deles indica onde é a sílaba tônica e no outro apenas indica apenas a pronúncia correta do fonema? (Se esta última pergunta pareceu falar quase da mesma coisa, é porque realmente fala.) Todos os acentos têm importância. Nenhum tem mais que o outro. Senão, vamos falar logo para abolirem todos os acentos e passemos a utilizar a tal da linguagem de internet, cheia das suas abreviações, erros sintáticos e gírias.
Talvez o erro esteja em nossos professores que, no momento da alfabetização, também devem focar o uso correto do trema. Claro que não como algo erudito, pois as crianças não iriam absorver. Mas apontar para as criancinhas que sempre que elas olharem os dois pontinhos sobre aquela letrinha que parece um copinho de água, elas devem pronunciar seu som.
A Língua é um patrimônio de uma nação, não um capricho. É, sem dúvida, algo em movimento, que deve ser modificado e modernizado. Porém, estas modernizações devem ser pesadas de acordo com as alterações dos tempos e o uso ou desuso de expressões. O trema é apenas um acento que causa dúvidas no momento de utilizar (novamente, talvez pela falta de ênfase no ensino). Mas está muito longe de ser inútil. E, a partir do momento em que não é inútil, não deve ser retirado.
Já digo desde já que, apesar de ter completado apenas recentes trinta anos, aconteça o que acontecer, serei daqueles velhos tradicionalistas que não conseguem abandonar seus antigos hábitos. Utilizarei meu querido trema sempre, para exatamente me expressar de maneira que eu julgue melhor para me comunicar. Digo que, para eu parar de usar o trema, teriam que inventar uma nova vogal, a qual substituísse o “ü”, mas que significasse a obrigatória pronúncia dela quando presente no vocábulo. Ou vocês não acham que há um risco (apesar de hoje parecer pequeno) de uma palavra como seqüestro – pronunciada secuéstro –, ser pronunciada no futuro sekéstro?
Por fim, peço apenas que contribuam. Utilizem o trema, vejam como se faz. Não é difícil. E espero que não haja a oportunidade de um dia, ao invés de redigir um elogio ao trema, eu tenha que escrever para ele uma elegia.
Escrito por Hugo Harris
Escrito por Hugo Harris
Escrito por Hugo Harris