Elogio ao trema

15 Março, 2008

Não estou aqui para ensinar-lhe a utilizar o trema. Para isso existem inúmeras publicações, dicas, ensinamentos, etc.. Procure, pois a explicação é simples. Basta ter atenção no momento da escrita. Estou aqui para rogar a ti que utilize o trema e que parem com esta perseguição covarde e indigna contra ele.

Normalmente, apenas respeitamos os acentos que nos indicam o tom em algum vocábulo. Assim, os acentos agudo, circunflexo e o til têm vantagem. Por outro lado, há dois que sofrem mais: o acento grave e o trema. O acento grave é aquele utilizado nas crases, no aditivo entre preposição e artigo ou preposição e primeira sílaba de alguma palavra (à, às, àqueles, àquelas…). Mas este artigo não é sobre a utilização da crase – apesar dela ser outra injustiçada na Língua Portuguesa. Nem sobre outras ferramentas perseguidas, como a travessão, o ponto e vírgula ou o ‘bendito’ uso do por que, porque, por quê e porquê. Queira ou não, goste ou não goste: esse texto é sobre o trema.

Não agüento (olha o trema aí!) que toda hora a gente lê em algum lugar que ele foi abolido. Ou que na próxima reforma da Língua Portuguesa será extirpado de nossos anais, como um acento leproso dentre outros sãos. Numa breve pesquisa que fiz, descobri que na última reforma que houve nas normas de nossa língua, ocorrida em 1971 (vejam: 1971!!! Depois disso, não houve nenhuma que tenha sido ratificada), realmente o trema foi abolido. Pasmem!! E agora, em que acreditar? Calma! Calma! Leia o resto. Foi extinta a utilização deste acento apenas num caso específico: era utilizado – de forma facultativa – para distingüir (olha o trema aí de novo!!) um hiato que poderia ser confundido com ditongo. Por exemplo, quando pensamos num país pequeno, chamamos de paisinho. Faríamos a distribuição de sílabas assim: pa-i-si-nho. Para ninguém confundir com uma forma carinhosa de chamar ao seu pai (– Venha, meu ‘paizinho’.), que teria uma separação pai-zi-nho, eles colocavam um trema ao escrever a primeira opção: païsinho.

Essa foi a única reforma referente ao trema.

O resto permanece. A utilização do trema em qüe, qüi, güe, güi ainda é válida. E espero que não desapareça. O trema é um acento que chamamos de diacrítico, pois atribui um som diferente a uma letra. Isso acontece também, por exemplo, com a cedilha. Quando colocamos aquela ‘cobrinha’ embaixo da letra ‘c’, significa que terá aquele sonzinho, exatamente, de cobra (“sssssssssss”). Ou vocês também querem a abolição da cedilha, por esta ser ‘inútil’?

Alguns dizem que o uso do trema é uma frescura. Eu não penso assim. Há alguns veículos da mídia que até desistiram de sua utilização. Seja para “facilitar a comunicação”, seja para ”deixar a linguagem mais limpa”. Para mim isto é pura preguiça e irresponsabilidade. Todos estes sinais que mencionei até agora possuem sua utilidade. Não importa que já saibamos como se pronuncia tal palavra. O que importa é que daqui a cem anos as pessoas devem continuar a saber como pronunciar a tal palavra. Por que palavras acentuadas com graves e circunflexos devem ser mantidas e o trema deve ser abolido? Só porque um deles indica onde é a sílaba tônica e no outro apenas indica apenas a pronúncia correta do fonema? (Se esta última pergunta pareceu falar quase da mesma coisa, é porque realmente fala.) Todos os acentos têm importância. Nenhum tem mais que o outro. Senão, vamos falar logo para abolirem todos os acentos e passemos a utilizar a tal da linguagem de internet, cheia das suas abreviações, erros sintáticos e gírias.

Talvez o erro esteja em nossos professores que, no momento da alfabetização, também devem focar o uso correto do trema. Claro que não como algo erudito, pois as crianças não iriam absorver. Mas apontar para as criancinhas que sempre que elas olharem os dois pontinhos sobre aquela letrinha que parece um copinho de água, elas devem pronunciar seu som.

A Língua é um patrimônio de uma nação, não um capricho. É, sem dúvida, algo em movimento, que deve ser modificado e modernizado. Porém, estas modernizações devem ser pesadas de acordo com as alterações dos tempos e o uso ou desuso de expressões. O trema é apenas um acento que causa dúvidas no momento de utilizar (novamente, talvez pela falta de ênfase no ensino). Mas está muito longe de ser inútil. E, a partir do momento em que não é inútil, não deve ser retirado.

Já digo desde já que, apesar de ter completado apenas recentes trinta anos, aconteça o que acontecer, serei daqueles velhos tradicionalistas que não conseguem abandonar seus antigos hábitos. Utilizarei meu querido trema sempre, para exatamente me expressar de maneira que eu julgue melhor para me comunicar. Digo que, para eu parar de usar o trema, teriam que inventar uma nova vogal, a qual substituísse o “ü”, mas que significasse a obrigatória pronúncia dela quando presente no vocábulo. Ou vocês não acham que há um risco (apesar de hoje parecer pequeno) de uma palavra como seqüestro – pronunciada secuéstro –, ser pronunciada no futuro sekéstro?

Por fim, peço apenas que contribuam. Utilizem o trema, vejam como se faz. Não é difícil. E espero que não haja a oportunidade de um dia, ao invés de redigir um elogio ao trema, eu tenha que escrever para ele uma elegia.


Go Go Speed Racer!!!

9 Março, 2008

Se não me engano, em maio será lançado o novo filme dos Irmãos Wachowsky, responsáveis pela realização da Trilogia Matrix e pela produção do filme V de Vingança. Será a adaptação para as telas do clássico desenho japonês: Speed Racer! Para aqueles que têm a idade próxima da minha (ou um pouco mais), a sessão nostalgia será tremenda.

Pelas notícias que li, eles desenvolveram novas técnicas para a filmagem de Speed Racer, assim como fizeram em Matrix. Vi o trailer em primeira mão e gostei. Isso já faz alguns meses. Mas deixei para mostrar agora para vocês, visto que estamos chegando perto da estréia.

Abaixo, dois vídeos: o primeiro é o trailer do filme e o segundo é a abertura tradicional do desenho, para matarmos a saudade.


O que aconteceu com a educação?

1 Março, 2008

Não, este texto não é sobre as péssimas condições do sistema de ensino brasileiro. Se fosse sobre isso, no título eu teria colocado a palavra “educação” com um “E” maiúsculo. Enfim, este texto também não é sobre normas de escrita. A educação à qual faço referência nasceu muito depois do ensino, próximo à ilustração do Iluminismo, e tem seu significado mais próximo à “etiqueta” que, pelo menos na língua portuguesa, é sua parente próxima dentro do dicionário na seção dos vocábulos que respondem pela quinta letra do alfabeto, segunda vogal.

Trabalho numa empresa que conta com bem mais de 100 pessoas. Estão distribuídas em turnos e em três casas separadas. Nem por isso não nos conhecemos. Há eventos que nos reúnem além das relações profissionais diárias. Todo mês há um evento para celebrar aqueles que fizeram aniversário. Um departamento organiza a festa, traz as comidinhas e bebidas, enfeita com alguns balões e fitas, bota umas plaquinhas nas paredes com o nome de quem receberá o parabéns. Acendem velinha, assopram e cantam parabéns. Tudo tão bonitinho.

O problema é quando acabam de cantar o parabéns. É como se fosse o estouro da boiada. No ambiente apertado onde fazem a festa, concentram-se todos os funcionários, os quais querem de qualquer jeito chegar na comida. São homens e mulheres, de todas as idades e cargos. Se empurram como se estivessem na fila de um jogo de futebol, loucos para chegarem ao objetivo: salgadinhos e docinhos. E não pega uma coxinha e um brigadeiro, ou um copo de guaraná e uma bala de coco. Pega dois copos de guaraná, enche de salgados e doces e equilibra numa mão. Na outra, faz um sanduíche de pratinhos de papel, sendo que o recheia são pelo menos dois pedaços de bolo.

Você deve pensar: não seja tão chato! Estavam levando para outras pessoas. Negativo. As próprias senhoras gordinhas (estou sendo educado, né…) comiam cada uma o próprio piquenique que tinha arrendado, sem dividir com ninguém. Eu nem consegui chegar à mesa de comidas. Peguei duas bolinhas de queijo porque uma colega que estava mais perto esticou o braço, com pena de mim. Afastei-me da mesa e apenas observei o tumulto. O pessoal comia e voltava para a fila para pegar mais e mais. Um bando de esfomeados. E nem posso dizer que são pessoas que tenham problemas para comer no dia-a-dia, pois são assalariados e muito saudáveis (lembre que falei das ‘gordinhas’). Essas mesmas mulheres que saem carregando os salgadinhos e dando cotoveladas para passar em meio à massa são mães e devem educar seus filhos para fazer o mesmo, né.

Será que não é possível chegar ao local, pegar uma dose pequena dos salgados que estão lá para todos e sair? Nem pensaram que tinha um monte de pessoas para comer, que todas devem participar de uma forma saudável.

Neste mesmo local, acontecem outras coisas comuns do cotidiano, sobre as quais já estamos acostumados então nem ligamos. Porém, já que eu já estava incomodado com a falta de educação dos outros, reclamei. Estava decidindo algo junto ao meu gerente quando fomos interrompidos por uma outra colega.

- Chefe. Vamos embora! Você não vai? Você não vai?

- Estou conversando com ele. Pode esperar?, falei indignado.

- E eu estou falando com você? Fique quieto! Estou falando com ele!

- Mas eu estou conversando com ele. Espere!

- Não estou falando com você! Não enche! (se vira para o gerente). Então, você não vai com a gente? Estão nos esperando.

Pensei comigo. Nossa, que mulher mal educada. Mas deixei quieto, ficou como se ela tivesse ‘ganho a discussão’ e fui embora, pois isso foi no final do expediente. Fiquei pensando sobre o assunto e relembrei a quantidade de vezes que essa colega (que por sinal é uma profissional competente) faz esse tipo de coisa. Interrompe os outros na hora que estão conversando, achando sempre que os seus problemas são os mais importantes. Mas ela é apenas um exemplo. Muitas pessoas são assim. Não basta ser apenas um bom profissional, as relações no trabalho são muito mais que isso. Eu mesmo devo ter meus momentos de falta de educação. Enfim, vocês que apontem, não eu…

Não vou dar mais tantos exemplos de falta de educação, apenas terminar com um que já se tornou folclórico. O que você acha da festa de comemoração de aniversário da cidade de São Paulo? Todo ano a mídia enaltece o bolo de quatrocentos ‘e lá vai pedrada’ metros que desaparece em cinco segundos. CINCO SEGUNDOS MESMO! O povo vai com sacos plásticos, pirex, tupperware, e até bacia. Quando dão o start, a pessoa arremessa o recipiente em cima do bolo e literalmente arranca o pedaço daquele latifúndio para dividir com seus familiares. Além de ser nojento para quem vai comer, todo mundo fica imundo. Tenho certeza que teríamos uma forma melhorzinha de comemorar o aniversário desta cidadezinha pequenininha que vivemos.

Acho que a educação foi substituída pelo egoísmo. Ser educado é pensar no próximo. Ser educado é viver em sociedade. Ser educado é saber que o outro é tão importante quanto você. Que os seus problemas, sim, são muito relevantes para ti, mas os dos outros também são relevantes para eles. Se há necessidade, pedimos a vez. Pedimos a vez. Não exigimos. Se há necessidade, conversamos com o outro a fim de tentar resolver. Abro o dicionário e encontro alguns sinônimos: civilidade, delicadeza, polidez, cortesia.

Bom, tem um bando de idiotas por aí que diz que o mundo é dos espertos. Pois é. Talvez seja mesmo. Enfim, veja como o mundo está.