Balanço do Oscar 2008

26 Fevereiro, 2008

Sim, fiquei acordado até as duas horas da manhã. Sim, eu ia acordar às quatro para ir trabalhar. Sim, eu fiquei o dia inteiro trombando nas paredes e jogando água na cara. Quem mandou não gostar de café… Mantenho a tradição de assistir ao Oscar. Por mais chatinha que seja a festa, tenho muita curiosidade quanto aos premiados. Já teve época em que eu gravava e assistia várias vezes. Mas este tempo passou. Agora já basta uma única vez.

Digo que não gostei muito da premiação. Principalmente no quesito “Melhor Filme”. Eu, realmente, não gostei do filme vencedor: “Onde os fracos não têm vez”. Se eu fosse pegar os cinco indicados e colocasse em ordem de preferência, seria a seguinte: 5° Desejo e Reparação; 4° Onde os fracos não têm vez; 3° Conduta de risco; 2° Juno; 1° Sangue negro. Ou seja, para mim, o vencedor deveria ser “Sangue Negro”. Mas este é um filme que através dos anos ficará cada vez melhor e melhor. E “Onde os fracos…” não ficará. Prefiro mais os outros filmes dos Irmãos Coen, principalmente “Barton Fink”, “Na roda da fortuna” e “O homem que não estava lá”.

Achei merecidíssimas as premiações dos atores e atrizes, com a exceção daquele que era o mais incontestável: Javier Bardem. Não achei tão especial o personagem dele em “Onde os fracos…”, sendo que gostei muito mais de Tom Wilkinson em “Conduta de risco”.

Para mim, há três filmes que foram injustiçados. O primeiro foi “Sweeney Todd”, que merecia muitas outras indicações, assim como o excelente “Senhores do Crime”, de Cronenberg (quem um dia ainda ganhará o seu premiozinho). O terceiro é “Na natureza selvagem”, que tem uma excelente direção, numa adaptação ótima do livro de Kracauer, montagem e fotografia muito boas. Porém, o maior destaque deste filme são as canções de Eddie Vedder, que deveriam ter sido indicadas ao invés das três insossas do filme “Encantada” (Alan Menken, quem te viu, quem te vê). Além destes três filmes, suspeito que o filme “Redacted”, de Brian De Palma, também merecesse espaço. Mas no futuro falarei dele, após ver o filme.

Fiquei surpreso ao ver que “Transformers” perdeu todos os prêmios. Para mim era certeza que abocanhava dois deles, de mixagem de som e efeitos visuais. Errei.

Adorei o prêmio de roteiro original, para “Juno”. Apesar de que gostei muito do roteiro de “Conduta de risco”. Já o de roteiro adaptado, vencido por “Onde os fracos não têm vez”, minha preferência era para “Sangue Negro” ou “O escafandro e a borboleta” – este último, por sinal, não entendi por quê não foi indicado para melhor filme estrangeiro.

É um fato interessante ver que os vencedores dos últimos anos ganharam poucos prêmios. “Crash” ganhou três. “Os infiltrados” e “Onde os fracos…” ganharam cada um quatro. Isso mostra maior equilíbrio, sem aqueles filmes sem-graça que abocanhavam 11 Oscars, ou 9, 8, que seja… Gosto mais quando é melhor dividido. Este ano tivemos “Onde os fracos…” com quatro, “O ultimato Bourne” com três, “Piaf” e “Sangue Negro” com dois.

Enfim, prêmios sempre são contestáveis. Qualquer um. Um prêmio não torna um filme melhor ou pior.

Ah, acho que é isso… Não tenho mais o que falar… Isso é o que penso e o que me fez pensar…


“Na natureza selvagem” e “Juno”

24 Fevereiro, 2008

Ontem fiz a loucura de uma sessão tripla no cinema. Comecei a tarde vendo “Senhores do crime”, em seguida assisti a “Na natureza selvagem” e terminei com “Juno”. Não vou falar do primeiro, pois num dos posts anteriores já comentei. Somente digo que o filme era exatamente aquilo que eu suspeitava, com todas as qualidades de Cronenberg. Porém, os outros dois filmes que foram surpreendentes, e é deles que quero falar.

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“Na natureza selvagem” foi dirigido pelo grande ator Sean Penn. Baseado no livro homônimo de Jon Krakauer, conta a história do real do Christopher McCandless, que resolve tornar-se um andarilho, apagar sua própria identidade, criar uma nova (Alexander Supertramp) e viajar para o Alasca. Um filme que poderia ser apenas uma história de um menininho bonito que vai para paisagens lindas, ultrapassa estes limites e mostra uma viagem interior, quando alguém decide ser mais que um simples aventureiro e vivenciar o mundo da forma mais despida possível. Há a questão filosófica, pois o rapaz foi influenciado por Tolstoy, London e, principalmente, Thoreau. Lembro que, quando li o livro há uns dez anos, foi atrás do “A desobediência civil” e entendi um pouco do que ele pensava.

Um filme de quase duas horas e meia, poucas falas, poderia se tornar chato e insuportável. Posso dizer que é um filme delicioso, onde concordando ou não com a aventura do rapaz, sem dúvida a entendemos. Não era um jovem rebelde, nem mesmo um pária, era apenas alguém que escolheu outra vida, fora das convenções que estamos acostumados e que consideramos obrigatórias.

Além disso, a trilha sonora é muito boa, com canções de Eddie Vedder, vocalista do Pearl Jam. É um crime este filme não ter recebido outras indicações ao Oscar, além da de montagem (a qual merece vitória) e melhor ator coadjuvante. No mínimo teriam que deixar de dar uma das três indicações que o filme “Encantada” teve para melhor canção e encaixar ”Long Nights” ou “Rise”, que são fabulosa. Sem dizer da direção sensível de Sean Penn, que cada vez mais demonstra que atinge sua maturidade como realizador. “Acerto Final” e “A promessa” já mostravam talento, mas este último confirmou.

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“Juno” foi a cereja sobre o bolo de meu sábado. Fui assistir sabendo que veria uma comediazinha americana, que poderia ser besta e ingênua. Mas o filme é tudo, menos ingênuo. Uma premissa clichê, como a gravidez na adolescência, torna-se o mote para uma história que demonstra as inseguranças resultantes de atitudes mal pensadas. Muito engraçado, com um humor áspero, sem gags, mas inteligência.

Uma atriz linda e talentosa, como a jovem Ellen Page, tem o carisma necessário para levar o filme, ainda mais que sua personagem possui um humor incomum, pleno em sarcasmo e sinceridade irônica. As outras personagens são esteriotipadas propositadamente, a fim de, novamente, com bom humor, mostrar como aquela situação banal e ao mesmo tempo complicada pode acontecer com qualquer um.

O filme foi dirigido pelo promissor Jason Reitman, que debutou com o filme “Obrigado por fumar”, outro cheio de humor ácido. Jason é filho de Ivan Reitman, o qual fez várias comédias nos EUA, principalmente com Schwarzenneger (“Irmãos Gêmeos”, “Júnior”, “Um tira no jardim da infância”. Tem apenas 30 anos de idade e já é indicado ao Oscar de melhor diretor. Ele é, como eu disse, no mínimo promissor.

Destaque final em “Juno”, para o momento em que Ellen Page e Michael Cera cantam “Anyone else but you”.

Fotos:


Timemania?

23 Fevereiro, 2008

Muito inteligente a idéia de colocarem o Pelé vestido com uma blusa azul escura de listras amarelas no anúncio do Timemania. Parece a camisa do Boca Júniors. Enfim, nosso governo demonstra novamente perspicácia, até quando procura estimular o público a ajudar os clubes brasileiros. Ainda bem que não há rivalidade entre Brasil e Argentina no futebol.

Nossa rivalidade, mesmo, é com a Guiana Francesa.

Mais nada a declarar.


“Hallelujah”

23 Fevereiro, 2008

Ao pensar em sentimento, naquilo que torna nossos corações frágeis como folhas de seda, diversos momentos podem ser lembrados. Há alguns anos, eu passava por um período de tristeza devido a questões amorosas. Quando isso acontece, nos surpreendemos com o que pode nos sensibilizar.

Eu assistia ao filme Shrek, que nem gosto muito, quando começou a tocar esta canção. “Hallelujah”, de Rufus Wainwright. Quando percebi, já estava chorando. E não era por causa daquele bicho gordo e verde. Era por causa da melodia, do tempo, que traduzia perfeitamente o que eu sentia.

A canção rola como uma prece, mas trata do amor.

Depois que escutei a música no filme, fui atrás. Encontrei e repeti a audição diversas vezes, como uma autoflagelação, pois chorava toda vez que escutava. Hoje, ainda escuto. Mas não choro mais. Apenas me emociono, o que já me basta.

Esta postagem é uma homenagem ao sentimento, ao amor, ao sofrimento e à capacidade que as músicas têm de mexer conosco.


A questão

22 Fevereiro, 2008

Autor: Luis Fernando Veríssimo

O texto abaixo foi originalmente publicado no jornal “O Estado de S. Paulo“, de 21/02/2008.  Resolvi colocar esta crônica na íntegra, pois me identifiquei com as reflexões deste grande escritor gaúcho e queria dividir com vocês.

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É difícil imaginar um negro como Barack Obama sendo eleito presidente – do Brasil. Dos Estados Unidos, talvez. Lá um negro já chegou a secretário de Estado, e foi substituído no cargo por uma negra. Desculpe: afrodescendentes. Pelo menos não escrevi ‘um negão como Barak Obama’, ou, para mostrar que não sou racista, ‘um negrinho’. A diferença entre um país e outro é essa. Lá o racismo é uma questão nacional. Aqui uma ficção de integração dilui a questão racial. E se a questão não existe, se ninguém é racista, por que nos preocuparmos com denominações corretas ou incorretas? Só quando a ficção é desafiada, como no caso das cotas universitárias, é que o apartheid que não se reconhece aparece.

Um dos marcos das relações raciais nos Estados Unidos não foi a primeira vez em que um negro interpretou um herói no cinema, provavelmente o Sidney Poitier. Nem a primeira vez em que um negro e uma branca, ou vice-versa, namoraram na tela. Foi a primeira vez em que um negro foi o vilão do filme. Colin Powell e Condoleezza Rice, que chegaram a secretários de Estado, e o próprio Obama, devem suas carreiras a esse vilão histórico, que significou o fim dos estereótipos e a aceitação, sem melindres, de que negro também pode ser ruim, igual a branco. Se a cor da pele não determinava mais que ele fosse sempre retratado como um inferior virtuoso ou uma vítima, também não o descriminava de outras maneiras. Powell e Rice levaram essa reversão de estereótipos ainda mais longe. Os dois são do partido republicano. Como Clarence Thomas, único juiz negro da Suprema Corte americana que também é um dos seus membros mais conservadores.

Claro que a cor da pele vai ser um fator na eleição ou não do Obama, como o fato de ser mulher vai ajudar ou não a Hillary. Por isso mesmo, sua possível eleição seria uma prova dessa transformação da questão racial no país, uma vitória numa guerra por direitos iguais que lá – ao contrário do Brasil – nunca foi disfarçada, ou desconversada. Aqui a miscigenação significou que alguns quase-negros, ou só um pouco afrodescendentes, chegassem ao poder, mas miscigenação entre nós não tem significado integração por vias naturais, e sim apenas outra forma de despolitizar e adiar a questão.

Obama será o candidato dos democratas? Estão comparando sua campanha com a de Bob Kennedy, pelo entusiasmo que provoca numa faixa de idade que não se interessava tanto por política desde a mobilização contra a Guerra do Vietnã. Li que 40% dos americanos que podem votar este ano nunca conheceram outro presidente que não fosse um Bush ou o Clinton, e Hillary seria outro Clinton nessa dança de dinastias. Assim, Obama seria uma novidade em mais do que o sentido racial. Como se precisasse outros.

Na comparação com Bob Kennedy, claro, ninguém ainda lembrou (pelo menos não sem bater na madeira) que aquela novidade terminou numa poça de sangue, no chão de uma cozinha de hotel. Batamos todos na madeira.


“Senhores do crime” é uma oportunidade de conhecer Cronenberg e depois assistir todos seus outros filmes

19 Fevereiro, 2008

Quem nunca viu um único filme do canadense David Cronenberg? Ou pelo menos ouviu falar? Mesmo sem saber que o filme é dele, quem não conhece “A mosca”, “Scanners”, “Videodrome”, “A hora da zona morta” ou “Gêmeos – mórbida semelhança”? São tantos os seus filmes. Eu, particularmente, gosto de TODOS. Não tem um único que eu não goste. Até os mais trash, como “Enraivecida na fúria do sexo” ou “The Brood – filhos do medo” são legais. Isso mesmo: “legais”. Filmes divertidos, mas de forma perversa e asquerosa.

Quem olha este homem de olhos azuis, não imagina que Cronenberg era conhecido por fazer esses filmes nojentos (lembra das cenas de “A mosca”?). Porém, o cineasta mostra cada vez mais que também faz narrativas sérias. Para mim, os dois maiores exemplos de excelência narrativa estão em “Gêmeos – mórbida semelhança” e “Spider”. Em “Marcas da violência”, seu penúltimo filme, também esbarra estas qualidades.

Nesta sexta-feira estreará outro filme: “Senhores do Crime” (Eastern Promises). A tradução é infeliz, mas pelo trailer dá para ver que o filme segue o estilo de seu antecessor. Novamente Viggo Mortensen estrela, como um personagem bem distante do rei-herói de “O senhor dos anéis”. Por sinal, Cronenberg se mostra cada vez mais um bom diretor de atores ou , no mínimo, muito feliz ao escolher seus elencos: além do ator principal, estão no filme Naomi Watts (que já participou de filme de outro diretor “esquisitão e fantástico”, David Lynch), o francês Vincent Cassel e o competentíssimo ator alemão Armin Müller-Stahl.

Pretendo assistir na próxima sexta-feira e sei que não vou me decepcionar. Sei o que esperar dele. Suspense, ação, qualidade na criação dos climas, personagens ambíguos e densos. Reviravoltas, surpresas, sombras e, claro, cenas asquerosas.

Depois, para equilibrar, assistirei a outro filmes que estreará, um pouco mais tranquilo: “Juno”, dirigido por Jason Reitman (filho de Ivan Reitman – coincidentemente, antigo parceiro de Cronenberg e diretor de filmes como “Os caça-fantasmas”, “Irmãos gêmeos”, “Um tira no jardim da infância”, entre outros). Mas esta é outra história. Fica pra depois.


O g(v)erme da violência nasce de onde?

18 Fevereiro, 2008

Blogueiro Convidado: Denis Vinicius Mello
Contato: ddtaxe@gmail.com

Nesse final de semana me veio à tona uma questão que afeta milhares, na verdade milhões de pessoas: a violência. Especificamente o caso que ocorreu no último dia 14/02, chamado de NIU Massacre (Northern Illinois University).

O caso envolveu a entrada de um homem, o assassino Steven Kazmierczak, nas dependências da Universidade e em seguida em uma classe onde, bem armado, começou a disparar contra os estudantes. Esse tipo de acontecimento, massacres ou assassinatos em massa (como preferirem), tornou-se habitual na vida dos americanos e de vez em quando recebemos esse tipo de notícia. Embora acabe por parecer normal, eu não consigo aceitar esse tipo de situação. Não consigo aceitar com normalidade, embora nossa sociedade tenha que viver com a cabeça baixa aceitando a violência em suas diversas formas.

Eu conversava com minha namorada nesse final de semana e ela me perguntou sobre o caso. Eu não tinha visto muito a respeito, mas depois o fiz. Ela me disse algo que me intrigou: “…deve haver um motivo para esses acontecimentos. Isso não é normal. Por que vemos isso com os americanos?” Seu pensamento me fez refletir, e sabe de uma coisa? Acho que há uma razão nisso. Embora eu não acredite que haja um motivo para haver cenas de violência como essa de tempos em tempos, eu tenho que concordar que há algo errado.

De fato há muita violência quando falamos de Brasil, que ocorre em nosso cotidiano, mas me lembro de um caso parecido aqui e já faz tempo: o caso do Shopping Morumbi, no qual um estudante, durante a sessão, iniciou o disparo contra o público que assistia ao filme. Se somos tão influenciados pela mídia americana em seus costumes, hábitos e tudo mais, assim como outras partes do mundo, qual a razão disso acontecer tanto lá? Existe um padrão? Um motivo? É um efeito colateral de uma sociedade frágil? Ainda não cheguei a uma conclusão. Ao procurar por informações na mídia internacional, pelo menos até agora eu apenas encontrei detalhes do massacre, as “lições aprendidas”, a descrição do horror, questões de segurança que precisam ser tomadas, a sua ocorrência no Valentine’s Day… Ainda nada que tente explicar a mente do assassino, seus motivos ou o que a sociedade perde com isso. É mais um caso para o FBI.

Serei vago na minha conclusão. Vou esperar por mais considerações sobre o caso, mas parece-me que é um sintoma de uma sociedade doente, arrogante e frágil. Não tão diferente da nossa: queimamos índios, mendigos. Também matamos ou humilhamos calouros no trote universitário. Ou pior, matam-se crianças arrastando pelas ruas, com ela presa pelo cinto de segurança…

Sintomas de uma sociedade, de um mundo doente.


Varíola!

17 Fevereiro, 2008

Blogueiro Convidado: Walter W. Harris
Contato: http://walterwharris.blogspot.com e wwharris@gmail.com

QUEM NÃO SE LEMBRA DA OBRIGATORIEDADE DE ESTAR COM A VACINAÇÃO ANTIVARIÓLICA EM DIA para se matricular na escola? Isso era um fato comum até apenas três décadas atrás, quando enfim a Organização Mundial de Saúde (OMS) considerou que essa grave doença estava erradicada.

Nenhuma outra doença afetou tanto a Humanidade, nem mesmo a peste bubônica, a tuberculose, a cólera ou a febre amarela. Derrubou vários impérios e o Homem viu seus filhos sucumbirem, ficarem desfigurados e cegos pela moléstia.
 
Há mais de 200 anos, Edward Jenner fez uma importante observação que serviu de fundamento para acabar com esse flagelo. As ordenhadeiras que contraíam varíola bovina pelo contato com úberes de vacas contaram a Jenner que ficaram protegidas da forma humana de varíola. Ele ouviu a voz do povo e comprovou o fato cientificamente. Não havia descoberto a vacinação, que já existia, mas sua técnica oferecia uma defesa confiável contra a doença.

Acredita-se que a varíola surgiu há mais de 10.000 anos em aglomerações agrícolas na África, espalhando-se para a Índia carregada por mercadores egípcios no último milênio antes de Cristo. Há evidências de alterações variólicas nas faces de muitas múmias, em especial na de Ramsés V, que morreu ainda jovem, em 1157 a.C.

A primeira epidemia de que se tem notícia ocorreu em 1350 a.C., na guerra entre egípcios e hititas. Numa epidemia em Atenas, em 430 a.C., observou-se que os sobreviventes da doença tornavam-se imunes a ela. Al-Razi (Abu Bakr Muhammad Ibn Zakariya al-Razi) fez a primeira descrição médica da varíola, em 910 d.C., intitulada De variolis et morbillis commentarius. Relatou que a transmissão se fazia de pessoa a pessoa e sua explicação do porquê as pessoas não desenvolvem a doença uma segunda vez foi a primeira teoria sobre imunidade adquirida.

Houve uma grande epidemia em Roma por volta de 180 d.C., matando entre 3,5 a 7 milhões de indivíduos; eram os primeiros anos do declínio do Império Romano. A disseminação da doença se deu com o avanço dos árabes, as Cruzadas e a descoberta do Novo Mundo. Foi a causa da queda dos impérios Asteca e Inca. Quando os espanhóis chegaram ao México, havia uma população de 25 milhões. Em 100 anos, havia menos de 2 milhões!

O Brasil foi o último país das Américas a eliminar a varíola. Em 1971, foram notificados 19 casos da doença, e apenas um caso em 1972. A partir daquela data, foi considerada erradicada nas Américas. Não se tem notícia de um único caso desde 1977, quando foi constatado o último na Somália (África). A varíola foi declarada erradicada do Mundo, pela OMS, em 1980.

A varíola foi a principal causa de morte nas aglomerações brasileiras, fossem elas vilas, vilarejos ou cidades. Na disseminação pelo interior, contaminou e matou muitos índios e escravos, além da população branca em geral. O mais antigo surto de varíola na cidade de São Paulo data dos primeiros anos da sua fundação. Uma terrível epidemia assolou São Paulo em dezembro de 1873, causando muitas mortes. Em conseqüência, foram construídos pavilhões de isolamento para varíola, na “antiga estrada do Araçá”, inaugurados em 1880, conhecido como o Hospital dos Variolosos. Em 1932 virou o Hospital de Isolamento Emílio Ribas, o atual Instituto de Infectologia Emílio Ribas, na Avenida Dr. Arnaldo.

Os últimos estoques do vírus da varíola encontram-se abrigados em dois laboratórios de referência da OMS: o Centro de Controle e Prevenção de Doenças em Atlanta (Estados Unidos) e no Centro Estatal de Pesquisas de Virologia e Biotecnologia em Koltsovo (Rússia).

Desde sua erradicação, a Organização Mundial da Saúde, por meio das Assembléias Mundiais de Saúde, vem discutindo a possibilidade de destruição desses estoques do vírus. Até 2007, não se havia chegado a um consenso sobre isso. Há, inclusive, grupos que são formalmente contra a destruição do vírus variólico, pela simples razão de que é um ser vivo que sobreviveu desde os tempos mais remotos e não deve ser liquidado da face da Terra. Outros grupos alegam que os vírus remanescentes devem permanecer para futuras pesquisas médicas, principalmente no combate a outras doenças, como a AIDS, através de estudos de modificações genéticas.

Recentemente, tomou-se conhecimento de que o Laboratório Nacional Sandia, pertencente ao Departamento de Energia dos Estados Unidos, está fazendo experiências com genes da varíola, introduzindo-os em outros organismos para produzir proteínas codificadas, com finalidades não reveladas. O governo não fornece nenhuma informação a respeito, mas sabe-se que a missão da Sandia é focalizada no planejamento e teste de Armas de Destruição em Massa para as Forças Armadas dos Estados Unidos. O DNA da varíola não se originou dos estoques controlados pela OMS, mas de empresas especializadas em engenharia genética.

Nas discussões sobre varíola, nas Assembléias Mundiais de Saúde, sempre há grandes divergências, e os Estados Unidos são inflexíveis em relação à destruição dos vírus variólicos. A OMS, por falta de provas, considera infundadas as alegações americanas de que há outros países que possuem o vírus. No entanto, os americanos afirmam que um cientista russo que passou para o lado deles confirmou que a Rússia desenvolve a varíola como uma arma biológica desde a década de 1980. Relatam, também, que a França mantém estoques com finalidade defensiva, em caso de um surto da doença. Inspetores das Nações Unidas observaram que prisioneiros iraquianos da Guerra do Golfo (1982) estavam imunizados contra a varíola, evidência de que o Iraque tinha o vírus à disposição. Os serviços de inteligência dos Estados Unidos e os russos mantêm que os norte-coreanos têm estoques para fins militares, embora estes sejam de qualidade mediana.

Enfim, são mais de 30 anos que não se tem notícia de um único caso de varíola natural em seres humanos. Todavia, relatam-se vários outros tipos de varíola, em macacos e outros animais.

Fica a dúvida se deve-se manter o vírus vivo em benefício da Humanidade ou destruí-lo para se evitar uma guerra biológica que poderia trazer uma desgraça incomensurável, provavelmente dizimando nações, que estão indefesas contra esse flagelo que se perpetuou durante milênios e há tão pouco, pôde ser eliminado.


Tropa de Elite, osso duro de roer…

17 Fevereiro, 2008

Existem alguns festivais de cinema pelo mundo que devemos respeitar. Não devemos respeitar pelo fato de serem famosos, ou pelo fato de ocorrerem em países desenvolvidos (costumamos preferir o que é de fora – cultura dos colonizados). A análise deve ser feita de acordo com os filmes que ganharam seus prêmios principais. E não devemos preferi-los pelo fato de “dizerem” que o filme é bom. Devemos assistir aos filmes e tirarmos, nós mesmos, a conclusão se é bom ou não. Aos poucos descobriremos o que respeitar, confiar, acompanhar.

Eu tenho um fraco por listas. Costumo fazer listas dos filmes vencedores dos principais festivais de cinema: Cannes, Berlim, Veneza. Acho que o de Moscou e Roterdã também poderiam ter suas próprias listas. Palma de Ouro, Urso de Ouro, Leão de Ouro. E por aí vai. Grandes filmes já ganharam, como “Magnólia”, “O pianista”, “O salário do medo”, “O segredo de Brokeback Mountain”, “Os guarda-chuvas do amor”, “Hana-Bi – fogos de artifício”, “A liberdade é azul”, “Lanternas vermelhas”, “Segredos e mentiras”, “Dançando no escuro”, “Pulp Fiction”, “Central do Brasil”, “O pagador de promessas”. E lembre que estou considerando apenas o prêmio principal. Há casos de filmes que ganharam menções honrosas e etc. que são tão bons quanto estes mencionados. Agora, dentro deste time que mencionei acima – que está representado apenas por algumas obras famosas para nos identificarmos –, está “Tropa de Elite”, de José Padilha.

Este filme, que está envolto por diversas polêmicas ganhou o prêmio principal daquele que eu considero o segundo maior festival de cinema do mundo: o Festival de Berlim. O Berlinale, como costumam chamá-lo, foi presidido este ano pelo cineasta de origem grega Constantin Costa-Gavras. Talvez pudéssemos entrar na discussão da relação deste cineasta ter como temática principal em seus filmes a opressão política, social e capitalista. “Tropa…” trata da opressão policial, a qual tornou-se necessária devido à opressão social, ao crime, à violência. E aí alguns iniciam a discussão: a opressão é justificada? O filme é fascista? Ou o filme é realista?

Na minha opinião, ele é apenas um filme. Ponto final.

Confesso que assisti ao filme numa daquelas cópias piratas que circularam em febre pela metrópole paulistana. Alguns dizem que foi uma estratégia de marketing. Acho um absurdo a acusação: ninguém teria a certeza de que uma “estratégia” como esta daria certo. Cinema é um empreendimento muito caro para você arriscar fazer todo um público latente deixar de ir ao cinema e ver em casa, praticamente de graça.

Como dizia, assisti ao DVD pirata, mas logo joguei fora, pois estava tão ruim que fiquei com medo que estragasse o aparelho. Mas gostei. Gostei muito. O filme é extremamente violento. Aqueles que criticam, fecham os olhos para nossa realidade. Dizem que o filme sugere a violência, justifica a atitude dos policiais. É irresponsável dizer que justifica. Poderíamos dizer que ela explica. As péssimas condições de trabalho do policial, a corrupção, a violência do crime organizado. Estão todos lá. Pergunto se aqueles que criticam o filme chegaram a assistir a “Notícias de uma guerra particular”, de João Moreira Salles e Katia Lund. Peguem o DVD e assistam aos extras (principalmente à entrevista do ex-comandante da Polícia Civil do RJ, o hoje deputado Hélio Luz).

Prefiro olhar o filme de José Padilha como um tratado sociológico. Este cineasta, por sinal, fez um documentário chamado “Ônibus 174″, que segue a mesma linha de estudo. Não demonstra apenas o fato, o acontecimento, e, sim, preocupa-se em buscar a semente. Pois é desde a semente que as coisas devem ser arrumadas. Ao mesmo tempo, também faz um retrato do treinamento do BOPE, violento e humilhante.

Para vocês terem idéia da qualidade deste festival, dois dos outros premiados foram Paul Thomas Anderson, melhor diretor por seu “Sangue Negro”, e “Standard Operating Procedure” (dirigido pelo experiente Errol Morris) foi o melhor documentário. Só para registro, este documentário é sobre as torturas ocorridas em Abu Ghraib. E não esqueça da Menção Honrosa ganha pelo também brasileiro “Mutum”, de Sandra Kogut, baseado no clássico “Campo Geral”, de Guimarães Rosa.


Catseries – um gato que é “um verdadeiro filé”

16 Fevereiro, 2008

Querer nomear um gato de Filé é algo, no mínimo, temerário. Todos sabemos que muitos dos espetinhos de churrasco que há na rua são feitos de gato. Daí, chamar um gato de Filé, torna tudo sugestionável.

- Você quer transformar o seu gato em um filé? É isso que deseja a ele?

- Não, não. O nome dele completo é Filé de Gato Harris., procuro responder, com um pouquinho de humor.

Mas, na realidade, este meu gato já é um filé. Mais é naquele sentido do “filézão”, do bonitão, do gato gatão. Este gato é um daqueles gêmeos que fomos adotar na Veterinária. Ele não poderia ser separado do irmão, que chamamos de Dengoso, sobre o qual já contei alguns ‘causos’.

Uma amiga muito querida que deu o nome para ele. Estávamos conversando no MSN sobre quais os nomes possíveis para dar para os gatos, e ela foi despejando. No meio de vários, vi “Filé”. Adorei. Simples, mas com personalidade. A barreira seguinte seria convencer meus pais em aceitar o nome. Porém, encontrei a oportunidade quando minha mãe quis dar o nome de Dengoso para o irmãozinho dele. Aceitei e logo em seguida emendei a vontade de que o outro poderia ser “Filé”. Não me recusaram.

Tenho percebido que ele se tornou um gato muito sério. Não que não seja carinhoso, ou que seja bravo. Ele é apenas sério. Ele de vez em quando imita os seus outros irmãos, se atira no chão e rola pelo tapete (dá-lhe pêlos!). Mas o que ele gosta de fazer mesmo é traquinagens escondidas. Ou seja, ele mantém a aparência de um lorde, mas às escondidas é um vagabundo. Sobe no varal, come as cortinas e almofadas. Diz a veterinária que é “mal-de-siamês”, gene este que está misturado em sua ‘viralatice’ e parece ser dominante. Mas ele faz parte do Quarteto Fantástico, e sempre há dentro destes times um personagem que é sério em alguns momentos e possui fraquezas noutros.

Duas fases. 1) Lorde:

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… 2) Vagabundo:

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Dormindo ao lado de seu irmão de rabo peludo:

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